MADRI — As eleições desta quinta-feira na Catalunha configuram uma reorganização do poder político na região, com prováveis repercussões no cenário nacional. A corrupção, que foi colocada em segundo plano e sequer foi tratada durante a campanha, centrada exclusivamente no independentismo, deverá acabar por ser a responsável pelo novo panorama, do qual os protagonistas, tanto do bloco separatista quanto do unionista, são partidos livres de escândalos: Esquerda Republicana (ERC), por um lado, e Cidadãos (Cs), por outro. Se assim for, se abre a possibilidade de uma série crise do Partido Popular (PP), hegemônico até agora na Espanha, que, embora minoritário na Catalunha, nunca tinha sido, como se prevê para este pleito, a sigla com menor representação parlamentar.
— Mariano Rajoy (presidente do Governo espanhol) poderá dizer que conseguiu frear o independentismo, mas quem se beneficiará será o Cidadãos. A crise já está aberta dentro do PP, onde há setores, apoiados pelo ex-presidente José Maria Aznar, que começam a apostar em Albert Rivera como alternativa ao próprio Rajoy — afirma o intelectual Jaime Pastor, professor de Ciências Políticas da Uned, referindo-se ao líder do Cidadãos.
O fato indiscutível é que a sangria de votos do PP está indo parar no Cidadãos, cujo dirigente nacional, Rivera, é o líder político mais bem avaliado pelos espanhóis nas pesquisas de popularidade. Dentro da Catalunha, no entanto, embora tudo indique que Inés Arrimadas, candidata do Cs, será a mais votada, o líder que melhor pontuação recebe na região é Oriol Junqueras, do Esquerda Republicana, preso por desobedecer à Constituição, levando adiante o plano secessionista até a Declaração Unilateral de Independência.
— Há uma dupla luta pela hegemonia: uma para ver qual dos dois blocos ganha, o independentista ou o unionista; e outra para ver quem ganha dentro de cada bloco — esclarece o analista político Fernando Vallespín, professor da Universidade Autônoma de Madri e ex-presidente do Centro de Pesquisas Sociológicas (CIS). — Entre os independentistas, os eleitores estão preferindo o autêntico ao convertido, porque o partido de Carles Puigdemont representa o neoindependentismo.
O peso dos mais de 80 anos de história do Esquerda Republicana, que sempre defendeu o independentismo, tem inclinado a balança a seu favor. No outro prato, o Juntos Pela Catalunha não parece estar conseguindo capitalizar suficientemente a imagem de “presidente no exílio”, que Carles Puigdemont vem procurando projetar desde Bruxelas, para onde partiu, no final de outubro, para evitar a prisão. A coalizão reúne legendas pequenas e a nova sigla PDeCAT (Partido Democrata Europeu Catalão), criada para se desvencilhar da mancha deixada por vários escândalos de corrupção do antigo Convergência, que vestiu a camisa do separatismo em 2012.
— A liderança do Esquerda sempre foi mais consistente e mais respeitada do que a do atual PDeCAT que, com toda a peripécia de Puigdemont, acabou muito desprestigiado — expõe o sociólogo Juan José Toharia, presidente do instituto de pesquisa de opinião pública Metroscopia. — O Juntos Pela Catalunha, além do mais, representa um partido que governa desde 1980, com exceção de oito anos (2003-2010), com um discurso que foi mudando e se radicalizando e com um amplo histórico de corrupção.
O PP também deverá pagar nas urnas o preço pelos envolvimentos em negócios escusos. Assim, o Cidadãos, que nas eleições gerais passadas saltou de nove a 25 deputados — tirando dos socialistas o papel de principal partido da oposição — deverá consolidar, agora, com só 11 anos de existência, sua relevância no panorama político espanhol, obtendo cerca de 31 cadeiras no Parlamento catalão.
— Se o Cidadãos ganhar com vantagem na Catalunha, o PP poderá se despedir de continuar vencendo na Espanha. Sua posição como primeiro partido espanhol está em sério perigo — afirma Vallespín. — Os que se reconhecem como espanhóis dentro da Catalunha se sentem mais bem representados por uma pessoa moderna, com um discurso direto, do que por um partido conservador com problemas de corrupção, como o PP.
A transversalidade de Cidadãos, cujos votantes não são necessariamente de centro-direita, é uma das características que capacita o partido a puxar o tapete do PP. Além do mais, desde as eleições gerais de 2015, quando Rivera competia com Pablo Iglesias, fundador do Podemos, como força política renovadora, o Cs passou na frente.
— Iglesias parecia que tinha mais força, mas a divisão interna no Podemos fez com que perdesse atrativo popular. Ele se desgastou tanto que passou a ser o líder mais mal avaliado. O Cidadãos, no entanto, é visto agora como uma possível alternativa de renovação ao PP.

