SEUL - O vizinho mais tenso da Coreia do Norte não demorou para responder ao poderoso teste nuclear realizado por Pyongyang no fim de semana. Ontem, após um dia de fortes condenações mundiais ao teste — classificado pela chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Yukiya Amano, como “uma nova dimensão de ameaça”, passando de regional a global — a Coreia do Sul disparou mísseis ao mar, numa simulação de ataque ao Norte. Além disso, Seul conseguiu de Washington o sinal verde inicial para aumentar ilimitadamente o poder de fogo do arsenal de mísseis sul-coreano, atualmente restrito por acordo entre os dois países. Enquanto isso, países do Ocidente pressionaram por aumento de sanções à Coreia do Norte numa reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, mas Rússia e China exortaram à diplomacia.
Numa demonstração de que pretende endurecer a posição contra Pyongyang, o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, aprovou o deslocamento total do sistema antimísseis americano Thaad, ao qual se opunha inicialmente.
— Ele está se tornando cada vez mais duro porque o teste nuclear mostra que a Coreia do Norte está se aproximando da “linha vermelha” — afirmou Kim Hyun-wook, professor da Academia Diplomática Nacional em Seul ao “Guardian”. — Moon será flexível, mas ele sabe que o momento não é adequado para dialogar com a Coreia do Norte.
A simulação sul-coreana usou caças F-15 e mísseis balísticos Hyunmoo, calculando distâncias em relação a alvos militares na Coreia do Norte. No início da manhã de hoje (hora local), a Marinha fez disparos de mísseis em novos exercícios de simulação. Após os testes de Pyongyang, o presidente americano, Donald Trump, criticou o que chamou de uma tentativa sul-coreana de apaziguar as ânimos do regime de Kim Jong-un. Os EUA mantêm cerca de 28 mil soldados em bases na Coreia do Sul e têm a obrigação de defender o país em caso de guerra. Em Washington, ao ser perguntado se atacaria a Coreia do Norte, Trump foi enigmático:
— Veremos.
Ontem, Trump e Moon concordaram em “defender pressão máxima e novas sanções contra a Coreia do Norte”. No entanto, o sul-coreano destacou que as sanções já aplicadas não impediram que Pyongyang levasse adiante seu programa de mísseis balísticos. E embora o americano tenha prometido responder com “fogo e fúria” às provocações norte-coreanas, Moon defende a busca por uma solução pacífica, já que, segundo ele, “sul-coreanos, e não americanos, sofrerão com os efeitos de uma possível guerra” — uma posição também defendida pelo chanceler britânico, Boris Johnson.
Segundo os termos do acordo com os EUA, a Coreia do Sul está proibida de desenvolver mísseis balísticos com alcance superior a 800km e peso superior a meia tonelada. O governo sul-coreano busca dobrar o limite de peso, e de acordo com um porta-voz presidencial ouvido pelo jornal “JoongAng”, Seul e Washington concordaram “inicialmente” sobre a necessidade de ampliar as defesas de mísseis do país.
A AIEA, braço da ONU dedicado ao controle no uso da energia nuclear, afirmou não ser capaz de determinar se as explosões dos testes foram causadas por uma bomba de hidrogênio — muito mais poderosa do que uma atômica — mas Amano afirmou ser capaz de deduzir que a Coreia do Norte está realizando grandes progressos em seu arsenal.
— Antes achávamos que se tratava de uma questão local, mas esse não é mais o caso — afirmou Amano à CNN. — É uma ameaça global, que combina armas e mísseis nucleares.
Além do escudo antibalístico — motivo de preocupação na China, que teme que os radares sejam usados para espionar seu sistema de desenvolvimento de mísseis — Seul e Washington também discutem o envio de porta-aviões, navios e aviões de guerra à Península Coreana. De acordo com o ministro da Defesa sul-coreano, Song Yong-moo, Pyongyang prepara um novo teste, provavelmente de um míssil balístico intercontinental, para reforçar suas alegações de que seria capaz de atingir os EUA com armas nucleares, e já teria miniaturizado uma bomba nuclear para acoplar numa ogiva.
Na reunião de emergência no Conselho de Segurança da ONU, as opiniões sobre como lidar com a ameaça norte-coreana foram divergentes. Representantes franceses, britânicos, japoneses e italianos exortaram o Conselho a adotar novas sanções contra o país, medida considerada ineficaz pelo embaixador russo na ONU, Vassily Nebenzia.
— Resoluções que se limitam somente a sancionar a Coreia do Norte não funcionaram no passado — argumentou Nebenzia.
O embaixador russo, assim como o chinês, Liu Jieyi, defende uma troca: a Coreia do Norte interromperia seu programa nuclear, enquanto EUA e Coreia do Sul abririam mão de seus exercícios militares conjuntos, encarados por Pyongyang como o ensaio de um ataque. Washington rejeita comparações entre suas operações com Seul e os testes nucleares realizados pelos norte-coreanos.
A embaixadora americana, Nikki Haley, voltou a elevar o tom em sua condenação.
— Nossa paciência não é infinita. Kim Jong-un está implorando por uma guerra — afirmou Haley, reafirmando a ameaça dos EUA de rever relações com parceiros comerciais de Pyongyang.

