MIAMI - A crise que deixou metade da população argentina abaixo da linha da pobreza no início da década passada levou a família de Tomás Pendola a deixar o país rumo aos Estados Unidos em 2001, quando ele tinha apenas 10 anos. Hoje, dezesseis anos mais tarde, Pendola é professor de Química na MAST Academy — uma das principais instituições da Flórida, considerada “a Harvard das escolas secundárias” — mas seu futuro no país agora depende de uma decisão do presidente Donald Trump que pode, hoje, dar fim à Ação Deferida para Chegadas Infantis (Daca, na sigla em inglês). Aprovado em 2012 por Barack Obama, o programa visa a proteger da deportação imigrantes sem documentação que tenham chegado ao país antes dos 16 anos.
— Você é livre, mas há tantas limitações que acabam fazendo com que se sinta preso — disse Pendola ao “Miami Herald”, comparando sua situação à do personagem de Tom Hanks em “O Terminal”: um imigrante que se vê impossibilitado de deixar um aeroporto após uma crise diplomática. — Era assim que pessoas que chegavam jovens ao país se sentiam antes do Daca. A maioria não se lembra de seu país de origem e, ao mesmo tempo, cresce num país ouvindo que lá não é seu lugar.
Trump diz estar decidido a dar fim ao programa, barrando a emissão de vistos de trabalho e a renovação de vistos existentes. Para Pendola, que deve renovar o documento a cada dois anos, a decisão gera dúvidas sobre suas chances de buscar um mestrado em Química Orgânica, e traz de volta aos beneficiados pelo programa o medo de uma possível deportação.
— Para algumas pessoas, um retorno significa a morte — comparou o professor, que afirma se sentir mais americano que argentino. — Não é o meu caso, mas para imigrantes de países como Honduras, Nicarágua e Venezuela a história é diferente.
Embora com o apoio de sua base eleitoral, que tem no combate à imigração uma de suas principais bandeiras, a decisão de Trump enfrenta resistência até mesmo de congressistas do Partido Republicano, como o presidente da Câmara, Paul Ryan, o governador da Flórida, Rick Scott, e o senador John McCain.
— Me oponho à imigração ilegal, mas não sou a favor de punir crianças pelas ações de seus pais — afirmou Scott.
De acordo com a rede Fox News, Trump deverá anunciar hoje o fim do Daca em seis meses, dando ao Congresso tempo para buscar uma alternativa ao programa. Filho de imigrantes cubanos, o senador republicano Marco Rubio exortou seus colegas no Congresso a aprovarem uma lei protegendo os Dreamers (“sonhadores”, termo pelo qual ficaram conhecidos os beneficiários do programa).
— Minha esperança é a de que possamos encontrar uma maneira de lidar com essa questão e resolvê-la com uma lei — disse Rubio à rede CNN. — Essa é a maneira correta e constitucional de fazer as coisas.
Outros, como o senador Steve King, de Iowa, se mostraram frustrados por Trump não ter abolido completamente o Daca, algo que o presidente poderia fazer emitindo uma ordem executiva.
“Dar um fim ao Daca nos dá a chance de restaurar o estado de direito”, escreveu King no Twitter. “Adiá-lo para que a liderança republicana defenda uma anistia aos imigrantes seria suicídio para o Partido Republicano”.

