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Cubanos veem cenário incerto para Raúl sem a presença do Fidel

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HAVANA - Local mais emblemático do regime de Fidel Castro na capital cubana, a Praça da Revolução se prepara para receber as cinzas do líder morto na sexta-feira, aos 90 anos. Palanques, caixas de som e cercas surgiam no local, que espera recorde de público para dar adeus ao Comandante. Mas passado o impacto inicial da notícia, Cuba voltava a seu ritmo normal, sem, até agora, um luto ostensivo como alguns esperavam com a morte do grande artífice da experiência socialista na ilha. Inclusive alguns de seus problemas voltaram, como o sufocamento de protestos, em uma mostra da continuidade das políticas de Raúl Castro e dos desafios que ele terá de enfrentar.

A poucos metros das famosas imagens gigantes de Che Guevara e de Camilo Cienfuegos nos prédios que circundam a praça, cubanos pareciam retomar a rotina: vendedores montavam barracas de comida para aproveitar o fluxo de pessoas que se espera no funeral de Fidel, famílias brincavam nas praças e jovens não desgrudavam de seus celulares conectados à internet por US$ 2 a hora, apenas sem as tradicionais músicas com som alto, em sinal de respeito. E a polícia do regime, em número muito maior nas ruas de Havana, atuava para impedir protestos. Talvez isto sequer fosse necessário:

— Decidimos não fazer nosso protesto neste domingo para não parecer uma provocação ao regime e porque não comemoramos a morte de ninguém, nem mesmo de um ditador. Mas mesmo que quiséssemos, não conseguiríamos. As casas das principais Damas de Branco (mulheres que protestam contra o governo, marchando aos domingos após a missa na Igreja de Santa Rita) amanheceram sitiadas por policiais — afirmou Berta Soler, uma das líderes do movimento. — Nada vai mudar neste país. Morre um ditador, segue outro.

A normalidade de Havana chegou a chocar alguns cubanos, sobretudo os mais velhos. Um turista desavisado talvez nem percebesse a morte de Fidel pela cidade, exceto pela falta de músicas nas ruas, shows e casas noturnas, obrigadas a fechar com o luto, e com a suspensão da venda de bebidas alcoólicas adotada por alguns estabelecimentos, com rumores da proibição não confirmados e nem desmentidos oficialmente. Muitos moradores da ilha esperavam um ar mais solene na capital.

— É impensável ver a cidade funcionando normalmente menos de 48 horas após a morte de Fidel, que mudou para sempre a História de Cuba — afirmou Rosemary, moradora de Havana que pediu para não dar seu sobrenome. — O que mais percebemos é um silêncio um pouco fora do comum das pessoas ao tratar de política. Muitos não querem falar, outros temem o futuro. Parece que voltamos aos piores momentos do regime.

Este temor pode parecer injustificado em Cuba, uma vez que Raúl Castro substituiu seu irmão em 2006 (e desde 2008 é o presidente de fato). Mesmo com Fidel no poder, Raúl era influente e já deixava sua marca, mais flexível que a do Comandante. Mas os desafios que ele, aos 85 anos, terá de enfrentar são relevantes e alimentam as inseguranças dos 11 milhões de habitantes da ilha. Mesmo afastado do poder, o líder máximo da revolução era um “sustento moral” ao governo e morre em um momento de fortes mudanças globais e de direção nos EUA (que podem abortar a aproximação dos dois) e de maior desinteresse sobre a ilha, graças ao ocaso da parceira Venezuela e à sofisticação da política externa chinesa.

Se por um lado cubanos acreditam que Raúl agora terá mais liberdade para implementar reformas, por outro, não contará com o apoio (muitas vezes apenas simbólico) do irmão, que podia tudo. Agora ele terá mais liberdade, mas deverá ser mais questionado, dizem cubanos em sigilo.

— Chorei quando soube da morte de Fidel, porque realmente me doeu — afirmou a dona de casa Sonia Cordovez, de 48 anos, que tem verdadeira veneração pelo líder. — Sabemos que ele é sério, mas o fato é que agora Raúl terá que dar conta de um país inteiro sozinho — disse ela, resumindo o pensamento de grande parte dos cubanos favoráveis ao sistema.

O relativo silêncio de Raúl desde o anúncio da morte do irmão, além da falta de informações sobre a causa, o funeral e o futuro, amplia a insegurança. Funcionários públicos, maioria esmagadora no país, sabem instintivamente que terão de ir à despedida, mas ainda não está claro qual será o período de fechamento das entidades públicas. Apesar de a TV estatal monopolizar seu tempo com programas dedicados a glorificar Fidel, há poucas informações práticas, tão necessárias a estas pessoas:

— Assim que soube da morte de Fidel corri para casa para ouvir as orientações da TV — afirmou Rosamaria Riso Barrera, que ganha a vida jogando tarô no centro de Havana.

Raúl amplia estas incertezas. No passado, já defendeu que o sistema público do país estava inchado com tantos funcionários públicos. Sempre defendeu mudanças econômicas para tornar o país “mais de mercado”, como a parceria com empresas estrangeiras. Para alguns, ele acredita em um socialismo à chinesa, com economia capitalista em um ambiente político e social comunista.

No início da primavera, os moradores comemoravam a “semana histórica”, com a visita de Barack Obama — o primeiro presidente americano a pisar na ilha em meio século — e com o show dos Rolling Stones. A retomada das relações entre os dois países e o abrandamento do embargo — turistas dos EUA lotavam ruas da Havana Velha — geravam otimismo e até euforia. Muitos acreditavam em uma nova era. Mas a eleição de Donald Trump e seus duros comentários sobre Fidel ajudaram a ampliar temores sobre o futuro.

— Muitos cubanos parecem mais preocupados com a mudança do governo nos EUA que com a morte de Fidel. Sabemos como Raúl pensa, ele já tem feito suas mudanças econômicas, apesar de manter os grandes problemas do regime, como a existência de duas moedas, a falta de liberdade e a implantação do medo generalizado — afirmou J.F., enfermeiro de 27 anos que, temendo perseguição, evita dar seu nome. — Não fico feliz com a morte de ninguém, mas Fidel era um tirano.

Mesmo os que defendem o regime e gostam do estilo de Raúl temem o que está por vir. Aos 85 anos, ele parece gozar de boa saúde e indica que designará Miguel Díaz-Canel, 56, seu braço-direito e vice-presidente, como sucessor. Seria alguém da nova geração. Mas a opaca política cubana impede apostas seguras e amplia o medo dos moradores, que agora não sabem como será o futuro da terra da salsa, do rum e do charuto.

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