RIO — O que o círculo vicioso dos executivos japoneses, a luta de refugiados da comunidade subsaariana no Monte Gurugú, no Marrocos, e as famílias espanholas destruídas pela crise econômica têm em comum? São três histórias entrelaçadas, em três continentes diferentes, que têm como fio condutor as palavras de José Mujica, ex-presidente do Uruguai, e estão no documentário “Frágil Equilíbrio”, lançado nesta quarta-feira no Brasil.
Filmado em dez países — dentre eles, Uruguai, Japão, Espanha, Marrocos, México, Hong Kong e EUA —, a produção, dirigida por Guillermo García López, traz uma reflexão sobre questões que norteiam a contemporaneidade, como a imigração e a crise econômica, mas também fala de sobrevivência, alienação, identidade, liberdade, solidão, amor e morte. Durante o longa, a voz de Mujica perpassa as realidades retratadas, questionando muitos dos fundamentos do mundo em que vivemos.
— São três histórias em três continentes diferentes entrelaçadas: dois executivos japoneses em Tóquio cujas vidas estão no círculo vicioso de trabalhar em corporações e de consumismo; uma comunidade subsaariana no Monte Gurugú, perto da fronteira entre a África e Melilha, que arrisca suas vidas, todos os dias, tentando atravessar rumo ao Primeiro Mundo; e famílias na Espanha que são destruídas pela crise econômica, a especulação imobiliária, corrupção política e sendo despejadas de suas casas como resultado — diz Pablo Godoy-Estel, um dos produtores do documentário.
A ideia para a produção nasceu quando o diretor, Guillermo García López, visitou o Uruguai e ouviu o discurso do então presidente Mujica. O contraste de um presidente perto do seu povo, que morava na sua casa quase do mesmo jeito que a maioria da população foi algo muito forte para quem vinha de uma Espanha em crise, com governantes quase inacessíveis.
Foram muitos meses de trabalho e insistência para que Mujica aprovasse uma primeira versão de “Frágil Equilíbrio”, e entendesse a importância da sua participação no projeto. Depois de persistir diariamente, por quase seis meses, a entrevista, que era para durar apenas uma hora, mas acabou se estendendo, foi concedida. E o resultado foi aprovado:
— Mujica viu o filme antes da estreia, conforme prometido. E agradeceu pela forma como transformamos suas palavras em imagens de tanta beleza — conta a produtora Marina García López. — Foi nosso grande prêmio.
No Brasil, os produtores planejam fazer as coisas de um jeito nada tradicional: vão disponibilizar o filme no “Vimeo On Demand” para todo o país, o que não fecha as portas para projeções especiais ou de até uma futura distribuição nos cinemas.
— Já procuramos festivais que nos dessem a oportunidade de nos comunicar com audiências interessadas nos temas que o filme aborda, mas agora nossa intenção é partir para um outro tipo de distribuição alternativa”, revela.
E o documentário chega já premiadíssimo. Já arrebatou o Goya, na categoria de Melhor Documentário; e saiu como vencedor de Melhor Documentário Espanhol na Semana do Cinema de Valladolid, na Espanha. Não sem percalços: além das dificuldades de se gravar em um campo de refugiados ou em prédios ocupados por sem teto, gravar um documentário em muitos países foi um desafio para uma produção independente por questões de orçamento e de tempo.
— Então nos comunicamos com colegas conhecidos em diferentes partes do mundo e explicamos o que estávamos procurando fazer e porque, além do que necessitávamos. Demos a eles as especificações técnicas corretas e assim tivemos todas as imagens que precisávamos — explica o produtor Pablo Godoy-Estel.

