WASHINGTON — Durante a corrida presidencial americana do ano passado, autoridades do governo russo discutiram informações potencialmente depreciativas sobre o então candidato republicano Donald Trump e alguns dos seus conselheiros em conversas interceptadas pela Inteligência dos EUA, segundo a CNN. A rede de televisão ouviu relatos de duas ex-autoridades e uma fonte do Congresso, que falaram em condição de anonimato. As comunicações sugerem que os russos acreditavam ter a capacidade de influenciar o governo americano.
Uma das fontes descreveu as informações interceptadas como de natureza financeira, acrescentando que a conversa se concentrou em debater se a Rússia tinha ou não poder de influência no círculo mais próximo de Trump. Não se sabe quais assessores de Trump foram citados na discussão.
A revelação da CNN traz novas informações relevantes sobre o escândalo político que afeta o governo já em seus primeiros meses. Correm diversas investigações paralelas nos EUA sobre a potencial influência russa nas eleições americanas, em que há suspeita de conluito entre Moscou e a campanha de Trump para favorecer a chapa republicana em detrimento da campanha da democrata Hillary Clinton.
Anteriormente, a rede americana já havia noticiado que conversas interceptadas pelos EUA mostravam autoridades russas se gabando por cultivarem relações próximas com assessores de Trump durante a campanha presidencial. Dentre eles, incluía-se Michael Flynn, ex-conselheiro de Segurança Nacional do republicano, que acabou se demitindo após as revelações de contatos inapropriados com os russos.
“Esta é outra leva de declarações falsas e não verificadas por fontes anônimas para desmerecer o presidente. A realidade é que uma revisão da renda dos últimos dez anos mostra que ele não teve nenhum laço financeiro. Parece não haver limite sobre até onde os oponentes políticos do presidente irão para perpetuar esta falsa narrativa, incluindo vazando ilegalmente material confidencial. Tudo isso joga na mão dos nossos adversários e coloca nosso país em risco”, disse um porta-voz da Casa Branca à CNN, enquanto o FBI e a Inteligência Nacional não quiseram comentar o assunto.
Nesta semana, o retorno de Trump à Casa Branca após uma viagem recheada de controvérsias com líderes internacionais foi marcado pelo contra-ataque a jornalistas e ameaças a funcionários em meio ao escândalo que colocou seu próprio genro, Jared Kushner, no centro da investigação sobre os laços de sua campanha eleitoral com o governo da Rússia.
Nos últimos dias, cresce a pressão para que Kushner, um de seus principais assessores, se afaste do cargo após a revelação de que ele tentou estabelecer canais secretos de comunicação com o governo russo durante a transição presidencial — burlando a vigilância e transparência requeridas pelo governo. Até o momento, ele é a figura de maior prestígio da equipe de Trump a se tornar foco das autoridades como parte de um inquérito liderado pelo FBI e investigações nas duas casas do Congresso.
Diante de crescentes rumores sobre uma reestruturação de sua equipe, Trump voltou ao Twitter para insinuar que as turbulências na Casa Branca são inventadas — e convocou seus principais assessores para defender Kushner e até colocar contra a parede potenciais responsáveis por vazamentos.
“Minha opinião é que muitos dos vazamentos saindo da Casa Branca são mentiras fabricadas pela imprensa #FakeNews”, tuitou o presidente pela manhã, repetindo sua acusação de que a imprensa crítica faz notícias falsas. “Sempre que você vir as palavras ‘dizem fontes’ na imprensa de notícias falsas, sem mencionar nomes, é muito possível que elas não existam, mas sejam inventadas. #FakeNews é o inimigo!”
Internamente, enquanto jornais locais revelavam que a Casa Branca prepara uma “sala de guerra” para confrontar a crise russa, o alto escalão do governo se defendia. Pouco após os tuítes de Trump, seu secretário de Segurança Interna, John Kelly, fez uma maratona em programas de televisão dominicais para classificar os canais secretos de comunicação como “uma coisa boa”.
— É tanto normal quanto aceitável, na minha opinião. Qualquer maneira de se comunicar com pessoas, especialmente com quem talvez não seja particularmente simpático a nós, é uma coisa boa — disse Kelly à ABC, antes de defender na NBC a posição de Trump contra os autores de vazamentos. — Acredito que quando se vaza o tipo de informação que rotineiramente tem sido vazada, com alto nível de confidencialidade, é algo perto de traição.

