PEQUIM — Com a escalada da tensão na Península Coreana, bem no seu quintal, a China pediu ontem que a Coreia do Norte suspendesse os programas nuclear e de lançamento de mísseis, e que a Coreia do Sul cancelasse os exercícios militares conjuntos com os Estados Unidos. A declaração foi feita pelo chanceler chinês, Wang Yi, e está sendo vista como base para uma proposta de paz na região. Mas já há quem diga que a insistência dos norte-coreanos com os seus lançamentos e a aparente “falta de pulso” da China para controlá-los pode minar a confiança para um entendimento. E os EUA e a Coreia do Sul não mostraram entusiasmo pela proposta.
Wang Yi disse que os dois lados parecem trens em rota de colisão. E alertou para o fato de uma corrida armamentista não ter trazido segurança à região.
— Será que estão preparados para o choque? — perguntou, destacando que a China poderia “acender os faróis e pisar nos freios” para evitar o acidente.
Pequim está irritada com os desdobramentos da nova crise. Já não esconde que perdeu a paciência com Pyongyang. Os norte-coreanos têm ignorado sistematicamente o seu único aliado e exposto a China a seus antagonistas, os EUA e a Coreia do Sul. Os dois países anunciaram exercícios militares conjuntos e já avisaram que em breve completarão o Thaad, sistema antimíssil em território sul-coreano. O ministro afirmou que tal opção é “um erro”.
Ontem, Wang Yi reafirmou que a Coreia do Norte vem ignorando a oposição internacional e descumprindo as resoluções do Conselho de Segurança da ONU. Segundo analistas, os chineses vêm visivelmente se afastando do regime de Kim Jong-un.
— Nos últimos dez a 15 anos, a China foi muito crítica da Coreia do Norte a portas fechadas. Mas agora está fazendo isso abertamente — disse ao GLOBO Ramon Pacheco, especialista da King’s College.
A avaliação é de que os episódios que se sucederam ao lançamento norte-coreano de 12 de fevereiro foram a gota d’água. A China mais uma vez condenou a operação e anunciou que suspenderia até o fim do ano as importações de carvão da Coreia do Norte, um golpe certeiro no coração financeiro de Pyongyang, que depende em boa medida destes recursos para se sustentar, diante das duras sanções impostas pela ONU.
Apesar das ameaças, os norte-coreanos fizeram um novo lançamento domingo. Os jornais estatais chineses já falam que os país deve preparar-se para tudo.
Na ONU, a embaixadora dos EUA, Nikki Haley, disse que Washington está reavaliando como deve lidar com a Coreia do Norte e afirmou que o líder norte-coreano “não é uma pessoa racional”. Sobre a proposta chinesa, foi evasiva:
— Temos que ver algum tipo de ação positiva da Coreia do Norte antes que possamos levá-los a sério — disse, lembrando que os exercícios conjuntos com a Coreia do Sul são realizados há 40 anos, e o Norte sempre é notificado.
Já o embaixador sul-coreano tachou de “inaceitável” ligar os exercícios aos lançamentos norte-coreanos.
O secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, visitará a Coreia do Sul na semana que vem numa viagem que inclui ainda visitas a Japão e China. Pacheco não descarta novas faíscas entre as Coreias. A tensão só se complica diante de um novo elemento de incertezas: Donald Trump.
— Já se sabia mais ou menos o que pensavam os governos anteriores. Com Trump, é uma incógnita — afirmou.

