BUENOS AIRES - Faz tempo que a imprensa venezuelana não tem motivos para comemorar, mas a terça-feira é, sem dúvida, um Dia do Jornalista triste para os que exercem uma profissão cada vez mais censurada, perseguida e atacada. Relatórios divulgados recentemente mostraram um panorama sombrio para meios de comunicação locais e, também, estrangeiros que enfrentam cada vez mais dificuldades para informar o que acontece na Venezuela governada por Nicolás Maduro. De acordo com o Instituto de Imprensa e Sociedade (Ipys), nos primeiros cinco meses do ano foram fechadas 42 rádios, em sete estados. Em muitos casos, eram emissoras de regiões rurais, onde não existe outra opção de acesso à informação. Ou seja, enquanto os protestos contra Maduro aumentam e, em consequência, também aumenta a repressão a opositores, moradores do interior ficam no escuro.
O Dia do Jornalista na Venezuela foi estabelecido em homenagem ao primeiro exemplar do “Correio do Orinoco”, criado por Simón Bolívar, que circulou em 27 de junho de 1818. A data provoca mais tristezas do que alegrias entre os jornalistas que, de acordo com a ONG Espaço Público, sofreram 367 ataques (detenções, agressões físicas, censura, multas administrativas) desde janeiro. Em 2014, quando o país também foi cenário de uma onda de protestos, o número de agressões alcançou 365.
— A situação da mídia é crítica. Entre 2002 e maio de 2017, foram fechados 130 meios. Este ano também bloquearam canais estrangeiros e canais digitais. Existe uma vontade expressa de impedir que seja divulgado o que ocorre — disse Carlos Correa, da Espaço Público.
Para ele, “os abusos do governo são cada vez mais impressionantes”.
— Uma pessoa esteve 67 dias presa por tuitar uma foto de um dos filhos de Maduro. Presa sem uma denúncia formal — comentou Correa.
A tropa utilizada pelo Palácio Miraflores são os funcionários da Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel). Usando como ferramenta a lei de comunicações aprovada em 2000, a Conatel fecha empresas alegando que estão na clandestinidade por não possuir autorizações que a própria comissão deveria ter dado há anos. As concessões não são renovadas, explicou Correa, “como estratégia para ter um férreo controle sobre a mídia”.
A mesma avaliação é feita por pesquisadores do Ipys.
— Somente entre março e meados de maio, foram fechadas 23 rádios. Desde o começo do ano, foram 42. Está clara a falta de independência da Conatel — apontou Mariengracia Chirinos, do Ipys.
Segundo ela, “este ano a perseguição aumentou de forma expressiva” e “muitos dos meios afetados estavam em regiões rurais, onde não existem outras alternativas. As pessoas acabam se informando em conversas, tudo fica precário”.
— Muitas pessoas ficaram no escuro, dependendo apenas de canais de TV estatais que não informam sobre as ações da oposição. A censura é quase total — lamentou a pesquisadora.
O controle a meios estrangeiros também se intensificou. Estima-se que este ano tenham sido deportados 17 enviados especiais de veículos de vários países, entre eles o Brasil. Outros jornalistas estrangeiros foram presos, como dois franceses, submetidos a um tribunal militar e só libertados graças à intervenção do governo da França. Em Caracas, comenta-se que funcionários da área de Inteligência colocaram drogas nas malas deles para justificar sua detenção no aeroporto internacional de Maiquetía.
— O decreto que renovou o estado de exceção, aprovado em maio passado, autoriza o governo a vigiar e censurar o conteúdo da mídia. Foi o aval dado à Conatel para cometer abusos — assegurou Mariengracia.

