PARIS — Proprietária de um hotel e de uma loja de decoração na Normandia, a brasileira Flávia de Mello teme uma eventual vitória da direita radical de Marine Le Pen, da Frente Nacional (FN).
— Estou na França há 23 anos, não tenho vontade de continuar aqui se Marine ganhar. Como estrangeira, este desejo de parte da população querer a guinada para a FN é um choque.
Flávia já sabe em quem vai votar, e inclusive tem feito campanha em seu entorno para o candidato:
— Temos 26 empregados, e noto que as pessoas só querem trabalhar por um tempo, para depois ficar em casa recebendo seguro-desemprego. É preciso aliviar os encargos sociais e diminuir a assistência social. Para mim, François Fillon (do partido conservador Os Republicanos) tem um excelente discurso e transmite a energia de querer tirar o país do marasmo.
Responsável pelo marketing em uma empresa agroalimentar em Marselha, Andréa Flores, há 15 anos na França, integra o grupo dos indecisos:
— Ainda não sei em quem votar. Estou entre o pragmatismo, que seria Emmanuel Macron (do movimento de centro Em Marcha!), e o sonho de uma sociedade que se quer para o futuro, encarnado por Benoît Hamon (do Partido Socialista). Estou nesta corda bamba.
A situação não é muito diferente perto de onde ela mora:
— Vejo muita indecisão, e alguns que têm candidato, mas dizem que é por falta de opção, que vão votar sem convicção.
O sentimento é partilhado por Sinara Lappann, dona de uma loja de bijuterias de designers brasileiros em Paris.
— Encontro muitas pessoas indecisas, perdidas, meio incrédulas com o que está acontecendo. Há uma falta de confiança geral, seja na esquerda ou na direita, e muito medo do que está por vir, principalmente se houver um segundo turno entre Jean-Luc Mélenchon (da frente de esquerda radical França Insubmissa) e Marine Le Pen. Há um receio de que a França saia da Europa.
Semana passada, ela recebeu quatro casais para jantar e fez uma sondagem eleitoral caseira:
— Alguns iriam votar em Macron, apesar de acharem que ele é uma continuação do governo François Hollande. Outros disseram que iriam se abster, porque acreditam que o voto não muda nada. Vejo uma descrença e um niilismo em relação à política na França.
Marcos Martins, sócio de uma empresa de turismo na capital e há 17 anos no país, acha que a situação atual reflete muito do que ocorre na Europa e em outros países do mundo:
— Os extremos estão conquistando cada vez mais espaço. Aqui, Le Pen é dada como quase certa no segundo turno, e agora no fim houve este crescimento de Mélenchon. As pessoas estão de saco cheio dos políticos que tiveram até agora, e querem algo novo, pessoas que ainda não estiveram no poder, que são os extremos. Penso que é algo perigoso, é um mergulho no escuro.
Para escolher seu candidato, ele respondeu a 81 questões do comparador de programas de governo, elaborado pelo jornal “Le Monde”.
— Deu Macron. Ele conseguiu trazer uma dinâmica diferente para a política.

