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Vencedor terá desafio da governabilidade na França

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PARIS — Os franceses começam a escolher hoje o próximo presidente do país numa eleição marcada por um ineditismo: quatro candidatos têm chances de passar ao segundo turno. De acordo com as últimas pesquisas de opinião, o centrista Emmanuel Macron, do movimento Em Marcha!; a líder da extrema-direita, Marine Le Pen, da Frente Nacional (FN); o conservador François Fillon, de Os Republicanos (LR, na sigla em francês); e Jean-Luc Mélenchon, da frente de esquerda radical França Insubmissa, disputam em situação de quase igualdade uma vaga no duelo final que decidirá, em 7 de maio, o sucessor do presidente François Hollande. Os eleitores votarão sob um forte esquema de segurança no país, reforçado por causa do atentado da última quinta-feira, num clima de ameaça terrorista que pode acrescentar votos de última hora à direita radical. O candidato vencedor enfrentará um novo desafio em junho, quando serão realizadas as eleições legislativas, para obter uma maioria parlamentar que lhe garanta um mandato governável.

No histórico eleitoral das últimas décadas, os pleitos foram configurados por um embate entre os candidatos das duas tradicionais forças políticas de direita e de esquerda do país, hoje representadas pelo LR e o Partido Socialista (PS). A exceção ocorreu em 2002, quando os socialistas surpreenderam ao serem excluídos do segundo turno pelo então líder direitista radical da FN, Jean-Marie Le Pen, pai de Marine. Este ano, o candidato do PS, Benoît Hamon, nem aparece em condições de entrar na briga, bem distante do quarteto favorito nas sondagens.

Para Michel Wieviorka, diretor na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS), a disputa de 2017 estabeleceu uma “paisagem política completamente inesperada”:

— Temos entre os quatro favoritos a extrema-direita (Le Pen), a extrema-esquerda (Mélenchon) e o centro (Macron), todos eles exteriores ao sistema de partidos clássicos. Apenas um candidato, Fillon, representa o sistema tradicional, e ainda assim com muitas dificuldades para se impor.

O analista ressalta que esta nova realidade política não é uma exceção francesa.

— Os sistemas políticos clássicos estão em dificuldade por todo o mundo, é um fenômeno planetário. A classe política tradicional está atrasada em relação aos problemas da sociedade, e acaba substituída por outros atores, em muitos casos extremistas, em eleições também caracterizadas por elevados índices de abstenção.

Não importa quem seja o próximo presidente, o pleito deste ano inaugura, segundo ele, um novo período político na França:

— Vamos, certamente, adentrar uma nova época, mesmo que François Fillon ganhe. Hoje, os métodos de sondagens são contestados, e as redes sociais adquiriram uma grande importância. Os partidos de esquerda e de direita tradicionais deverão ser completamente renovados. Está se criando uma outra clivagem, entre os que defendem uma sociedade aberta ou fechada.

O ineditismo da eleição de 2017 também está na renúncia do presidente no cargo à candidatura ao segundo mandato. Valéry Giscard d’Estaing, em 1981, e Nicolas Sarkozy, em 2012, perderam as tentativas de reeleição nas urnas, mas François Hollande, com índices recordes de impopularidade, desistiu de concorrer a um novo quinquênio.

Para Bruno Cautrès, do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences-Po), este fato foi determinante no tabuleiro eleitoral:

— Nesta eleição, tudo começa a partir da decisão de Hollande de não se recandidatar. Isso introduziu uma grande perturbação: a esquerda não teve candidato natural, a direita não teve seu inimigo natural, e criou-se a oportunidade para Macron e os extremos. Foram abalados os pontos de referência habituais do sistema político francês. E após dois mandatos, de Sarkozy e de Hollande, os franceses tiveram o sentimento de que testaram duas pessoas diferentes e não funcionou em nenhum dos casos.

O analista endossa o coro daqueles que apostam na implementação de mudanças significativas no atual modelo político a partir deste pleito.

— É muito provável que o próximo presidente promova reformas institucionais importantes. Talvez em 2022 as instituições não sejam as mesmas de hoje. Se poderá ter eleições proporcionais ou a redução do número de deputados — prevê.

Os analistas ressaltam a importância das eleições legislativas de junho para determinar o grau de governabilidade do novo Executivo. Para Nicolas Sauger, da Sciences-Po, o pleito será crucial. Entre os quatro favoritos, Fillon seria o único, na sua opinião, que não representaria uma virada política maior. Mas a capacidade de mudança dos demais dependerá de como ficará a composição do próximo Parlamento.

— Com Le Pen, Macron ou Mélenchon, a probabilidade de que possam pôr em prática seus programas é relativamente baixa. Le Pen não terá maioria na Assembleia Nacional, Mélenchon idem, e mesmo para Macron é pouco provável. Todos terão de compor alianças para ter uma maioria heterogênea. Suas chances de implantar transformações ambiciosas são fracas.

A única certeza deste pleito parece ser sua completa indefinição:

— É a eleição mais incerta da 5ª República (em vigor desde 1958). Os candidatos possíveis de aceder ao segundo turno, exceto um deles (Fillon, premier no governo Sarkozy), nunca estiveram antes em reais postos de poder. E, sobretudo, há a incógnita em relação às eleições legislativas. Ninguém tem a mínima ideia de como tudo vai se passar — resume Sauger.

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