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Brasileiro detido pode ser mais um caso de prisão arbitrária na Venezuela

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RIO, BRASÍLIA E BUENOS AIRES — Um dia após a detenção do brasileiro Jonatan Moisés Diniz, 31 anos, em Caracas — supostamente por participar de uma organização criminosa com braços internacionais — a falta de informações dificulta o acompanhamento do caso. Nesta quinta-feira, o Ministério das Relações Exteriores informou que o Consulado do Brasil em Caracas já está ciente, enquanto a família ainda busca contato com o brasileiro. A mãe, Renata Diniz, de 60 anos, afirmou que não há motivos para prisão do filho já que ele estava na Venezuela para ajudar crianças carentes. O governo venezuelano, no entanto, acusa Jonatan de dirigir a ONG Time to Change, que serviria de fachada para promover atividades contra o governo nas redes sociais e nas ruas. O caso de Jonatan poderia ser mais um de prisão arbitrária: no momento, há 268 presos políticos no país. Cabello sugeriu que a CIA poderia estar envolvida nas supostas atividades do brasileiro contra o regime, com o objetivo de “identificar objetivos estratégicos e financiar terroristas”. Mas analistas, juristas e representantes de ONGs locais afirmam que, na maioria dos casos, são veiculadas informações falsas ou, no mínimo, exageradas.

— Sempre temos de verificar e consultar outras fontes mais confiáveis — disse o jurista José Vicente Haro, defensor de vários casos de presos políticos e professor da Universidade Central da Venezuela.

Cabello já fez acusações contra representantes de ONGs como a Foro Penal — que atua em casos de presos políticos —, consideradas absurdas. Um deles foi Alfredo Romero, diretor da Foro Penal, que segundo Cabello cobra US$ 1.500 de presos libertados.

— O que Cabello diz ninguém leva muito a sério, são informações manipuladas, mentiras e falsidades — disse uma fonte venezuelana, que pediu para não ser identificada.

IMPRESSIONADO COM A POBREZA DO PAÍS

As denúncias foram feitas na noite de quarta-feira por Diosdado Cabello — figura forte do chavismo — em seu programa de TV semanal. Outras três pessoas, de cidadania venezuelana, também foram detidas, segundo Cabello, que acusou a ONG que o brasileiro lidera de entregar alimentos e itens básicos a moradores de rua para, na verdade, obter financiamento em moeda nacional e estrangeira para grupos que o governo classifica como terroristas. Na operação, policiais apreenderam 40 camisetas e bonés de cor vermelhas, identificadas com o nome da ONG.

— Foram presas no estado de Vargas pelas forças de segurança quatro pessoas, integrantes de uma organização criminosa com braços internacionais — disse Cabello, citando especificamente Diniz: — Ele está preso, senhores da embaixada americana. Serão garantidos os seus direitos humanos. Alerta com este tipo de ações de aparência social.

Diniz também faria parte do “Warriors of Angels” (“Guerreiros dos Anjos”, em português) e estaria sendo punido por publicar na internet imagens de crianças desnutridas e dos protestos contra o regime, que tomaram as ruas da Venezuela durante vários meses em 2017. Em um post no Facebook de junho, o brasileiro afirma que diferentes setores da sociedade estavam se unindo para “batalhar sem medo e com muita energia” para tirar a Venezuela de uma “crise infernal”.

O jovem nasceu em Balneário Camboriú, em Santa Catarina, mas morava em Los Angeles, nos EUA.Nas redes sociais, mostrava-se indignado com a situação da Venezuela — onde morou durante um período este ano. Apesar das acusações, a mãe do brasileiro disse em entrevista ao GLOBO acreditar que o jovem será libertado em breve. De acordo com Renata, Jonatan morou durante um curto período na Venezuela no início deste ano e ficou impressionado com a pobreza no país. Ele embarcou para a capital da Venezuela há dez dias.

— No momento, não sabemos muito bem o que está acontecendo. Estamos correndo atrás de informações. Tudo que está sendo dito sobre ele não é verdade. Ele só ajudava crianças. Fez um Natal para 600 (crianças) na Venezuela. Ele não se conformava com o que o governo fazia com as crianças.

MADURO ATACA BRASIL

A prisão ocorre no momento em que Brasília e Caracas enfrentam uma crise diplomática. O Itamaraty ainda está recolhendo informações sobre o caso. Segundo relatos, alguns familiares de Jonatan entraram em contato com o corpo diplomático brasileiro e teriam conseguido precisar o local onde o brasileiro foi detido. A família — que procurou o Consulado em Caracas para saber da situação do brasileiro — tenta, de acordo com relatos ainda extraoficiais, conseguir autorização para visitar o jovem. O corpo diplomático está tentando dar todo apoio aos familiares, mas ainda busca informações na Venezuela e nos EUA.

E apesar da contundência das novas declarações do governo venezuelano contra o governo brasileiro, o Itamaraty não pretende emitir posição a respeito. A postura adotada nos recentes atritos diplomáticos é de não exacerbar os ânimos.

Em dias de alta tensão nas relações diplomáticas entre os dois países, com a expulsão recíproca de embaixadores, Maduro atacou, na noite de quarta-feira, o governo brasileiro. No último sábado, a Venezuela havia declarado o embaixador brasileiro Ruy Pereira persona non grata, e expulsado o encarregado de negócios canadense, Craig Kowalik. Em reação às medidas hostis, Brasília e Ottawa também expulsaram os diplomatas venezuelanos.

— Me agrada muito que o governo não eleito de extrema-direita do Brasil e o governo com complexo imperialista de extrema-direita e racista do Canadá tenham reconhecido o poder plenipotenciário da Assembleia Nacional Constituinte — disse Maduro, enviando uma ordem irônica ao seu ministro das Relações Exteriores, Jorge Arreaza: — Chanceler, agradeça a eles de minha parte, por favor, oficialmente, por escrito.


 

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