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Boric corre riscos se nova Constituição do Chile não for aprovada, diz analista

SANTIAGO, CHILE (FOLHAPRESS) - O governo de Gabriel Boric como presidente do Chile ainda não começou, mas seu primeiro desafio político está claro: levar a Assembleia Constituinte a um acordo pela via da moderação e, assim, fazer com que a Carta seja aprovada no plebiscito do ano que vem. Se isso não ocorrer, afirma o sociólogo Eugenio Tironi, a gestão do esquerdista estará comprometida já no primeiro ano.

Por outro lado, para Tironi, a opção do ultradireitista José Antonio Kast perderá força. "Ele está desinflando e voltará a ser uma figura política menor", antevê, por ter forçado a direita democrática a retroceder e, agora, derrotada, ter de passar por um processo de autocrítica e reconstrução.

O sociólogo, que participou da campanha pelo "não" no plebiscito que colocou fim à ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990) -o "não" defendia a saída do general- e da área de comunicação do governo do ex-presidente Ricardo Lagos (2000-2006), conversou com a Folha, em Santiago.



PERGUNTA - Qual fator explica melhor a vitória de Gabriel Boric nesta eleição?

EUGENIO TIRONI - O principal foi a entrada de uma parcela importante de jovens na institucionalidade da nossa sociedade. De camadas médias e populares, bem formados e comprometidos com a agenda deste século, a ecologia, a diversidade e os direitos humanos. Que já eram a agenda da juventude, mas que agora se traduzem em votos, em cidadãos que quiseram sair de casa para participar. Essa é uma mudança enorme em nossa cultura política.

P. - Haverá um "kastismo" após esta votação?

ET - Acredito que a figura dele vá desinflar. Já está desinflando. Pode continuar na política, mas voltará a ser aquela figura pequena, que teve 8% dos votos nas eleições de 2017. Porque a direita democrática e a centro-direita chilena haviam avançado muito, feito muito esforço para se afastar do legado de Pinochet, para se modernizar em relação a direitos civis, para se mostrar preocupada com os direitos humanos, para não ser mais identificada com projetos autoritários.

E agora vai se dar conta do erro que foi abrir mão desse esforço. Jogá-lo todo no lixo para abraçar uma figura messiânica e antiquada. Isso vai custar caro, os partidos da aliança direitista vão se fragmentar, e serão necessários uma autocrítica e um processo de cura. E, neste processo, vão renegar e isolar Kast.

P. - Ano que vem será também o ano da Constituinte. Teremos plebiscito, e a nova Carta pode ser aceita ou rejeitada. Como vai impactar a gestão Boric?

ET - A Assembleia Constituinte será muito central para o novo governo. Hoje temos um grupo grande de legisladores ali que estão cumprindo uma função panfletária e não pragmática. Estão na Constituinte para dar visibilidade, para fortalecer uma causa. E isso não é funcional para a redação da Carta. Se esse grupo for mais forte do que o grupo pragmático, a Constituição pode ser rejeitada. E, se isso acontecer, será um tiro na asa de Boric, pode significar o fim de seu governo.

Para Boric, tão identificado com o processo constitucional, é indispensável que se chegue a um acordo pela moderação na Constituinte. Que o plebiscito de aprovação seja um mero trâmite, facilmente aprovado, não uma disputa polarizada, muito menos com uma derrota.

P. - E o que ele, pessoalmente, pode fazer para que isso ocorra?

ET - Boric terá de fazer algo, mas não pode intervir no processo, que é soberano e independente. Precisará convencer as forças que o apoiam a orientar seus legisladores para que busquem a moderação e o acordo. Este processo já começa agora, quando será escolhido o substituto de Elisa Loncón [há eleição para uma nova mesa de direção da Constituinte em 4 de janeiro]. Até aqui, ele estava preocupado com sua própria campanha. Agora, seu projeto tem de ter a Constituinte. Se houver uma derrota no plebiscito, será uma derrota pessoal de Boric.

P.- A Constituinte deve preocupá-lo mais do que a divisão do Congresso, então?

ET - Sim, porque Boric se formou no Parlamento e tem mais traquejo para lidar com o Legislativo. Além disso, é preciso lembrar que a direita irá se fragmentar ainda mais. Então, a ideia de que o Congresso está empatado será colocada em xeque. Os partidos de direita e de centro-direita vão se descolar da união provocada pela necessidade de apoiar Kast, muitos vão querer se descolar dessa figura mais que outros, e então Boric terá esses votos para seus projetos. Evitar que a Constituinte saia mal será mais duro do que negociar com o Congresso.

P.- Em sua opinião, qual será o legado de Sebastián Piñera após o fim de seu mandato?

ET - Creio que ele será mais bem avaliado pela história do que está sendo avaliado agora. Seu grande trunfo terá sido a vacinação e o enfrentamento da pandemia. E é preciso destacar que ele não respondeu aos protestos de 2019 de modo autoritário, negociou, abriu espaço para a Assembleia Constituinte.

E ficará marcado também o fato de ter passado a faixa presidencial ao presidente mais jovem da história do Chile. Ricardo Lagos ficou emocionado ao passar a faixa para Michelle Bachelet, a primeira presidente mulher do Chile. Tenho certeza de que Piñera ficou aliviado de Boric ter vencido e vai ficar emocionado ao passar a faixa para ele. E será muito bom para sua imagem nacional e internacional, tão desgastada.

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