Atos no Chile marcam dois anos de megaprotestos que escancararam insatisfação popular

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

18/10/2021 20h35 — em Mundo

GUARULHOS, SP (FOLHAPRESS) - No aniversário de dois anos dos megaprotestos que ocuparam as ruas do Chile em 2019 e conseguiram a convocação de um plebiscito para formular uma nova Constituição, chilenos organizaram um novo dia de manifestações nesta segunda-feira (18).

Desde o início da madrugada, atos se espalharam pelo país —em especial na capital, Santiago, berço da onda de mobilizações de dois anos atrás. O movimento estudantil, que deu o pontapé inicial dos protestos em 2019 ao exigir a suspensão do aumento da tarifa do metrô, foi um dos grupos nas ruas.

“O único caminho é o exemplo de outubro”, dizia uma das faixas carregadas, segundo relatos da agência de notícias AFP. Cerca de 100 manifestantes também interromperam o trânsito na avenida Alameda, a principal da capital, para exigir moradia digna.

Mais de 50 convocatórias eram para concentrações na praça Itália, epicentro das manifestações. Muitos dos atos foram realizados em estações de metrô, algo comum nas mobilizações de 2019 e de 2011.

Por volta das 13h30, pessoas também se reuniram em frente ao Congresso chileno para pedir a liberdade dos manifestantes presos há dois anos, de acordo com informações do jornal La Nación, e ao menos 5.000 policiais foram mobilizados pelo país para acompanhar os atos.

Os megaprotestos de 2019 deixaram mais de 30 mortos e dezenas de feridos. Centenas de pessoas ficaram parcialmente cegas após serem atingidas por projéteis de borracha e spray de gás que policiais dispararam, e o governo do presidente conservador Sebastián Piñera foi acusado internacionalmente por violações de direitos humanos.

Como marco simbólico da data, a Assembleia Constituinte escolheu esta segunda-feira para iniciar os debates das comissões temáticas que vão redigir o conjunto de leis. A líder mapuche Elisa Loncón, presidente do colegiado, felicitou a data, que descreveu como histórica.

“Pela primeira vez, nós, povos do Chile, sentamos na mesma mesa, em condições de igualdade e horizontalidade, para discutir e pensar um país em que a dignidade vire algo comum”, disse. “Hoje, esta Assembleia, que é filha da mobilização popular, começa um diálogo esperado por décadas —ou até mesmo séculos.”

A nova Carta Magna deve substituir a que vigora desde 1981, escrita sob a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). Ainda que a Constituinte tenha sido atrasada por debates para definir seu funcionamento interno, a redação do novo documento, que terá de ir a votação popular, é vista com esperança por analistas políticos.

"Essa agitação social está sendo canalizada para a construção da nossa democracia", disse a cientista política Pamela Figueroa, da Universidade de Santiago, à agência Reuters. "Este é um momento de comemoração, mas sabemos que também traz dor para muitas pessoas, em razão da violação de direitos humanos [em 2019]."

O presidente Sebastian Piñera chegou a reconhecer, ainda naquele ano, que as forças de segurança do país descumpriram os protocolos de uso da força. A Anistia Internacional denunciou uma "política deliberada" para castigar manifestantes, e a Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, –ex-presidente do Chile– investigou as denúncias de violência estatal.

A celebração de dois anos da onda de protestos que culminaram na Constituinte e expuseram a insatisfação popular ocorre, ainda, em meio a uma crise política. Há pouco menos de uma semana, partidos de oposição pediram o impeachment de Piñera, investigado pelo Ministério Público pela suposta prática de suborno e crimes fiscais.

Os possíveis crimes foram revelados após a publicação de uma apuração jornalística global —os Pandora Papers—, que mostrou operações de ao menos 35 líderes mundiais em paraísos fiscais. No caso de Piñera, o chefe do Executivo é investigado por possível conflito de interesses na venda de uma mineradora que pertencia à sua família.

Também nos últimos dias, em meio a protestos do povo mapuche, residente no sul do país, o presidente determinou a militarização de quatro zonas das regiões onde eles residem, medida pela qual foi criticado.

Em menos de um mês, o país latino-americano terá eleições presidenciais. Os principais candidatos são o esquerdista Gabriel Boric, 35, o advogado de ultradireita José Antonio Kast, 55, e o candidato governista, Sebastián Sichel, 44.

No Twitter, Boric celebrou o marco dos protestos. “Já faz dois anos que o Chile cansou dos abusos, e iniciamos um processo de mudanças que ainda está em disputa”, escreveu. “Vamos vencer, porque a força do povo é a unidade, não a violência.”

Já Kast disse que “não há nada para comemorar”. “É um dia para ser condenado. Nunca mais podemos voltar a aceitar a chantagem à institucionalidade do nosso país”, escreveu o presidenciável.

Sichel, por sua vez, afirmou que se trata de um dia que “deveria doer em todos, não sendo uma comemoração” e fez uma defesa contra os “extremos políticos”. “É o fracasso da classe política, e os violentos puderam tomar a agenda porque a classe política não conseguiu resolver os problemas urgentes.”


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