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Artigo: Uma nova diáspora na América do Sul

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Os problemas de Anacelis Alfaro começaram no fim do ano passado na praça principal de Barquisimeto, a quieta capital do estado de Lara, na Venezuela. Alfaro, então com 51 anos, era organizadora de eventos de uma universidade privada — e ativista do partido Vontade Popular (VP), de oposição, para o qual organizava encontros.

Num dia de dezembro, o partido comemorava aniversário, e o discurso de Alfaro destacava a participação feminina na política, mencionava a prisão arbitrária do líder Leopoldo Lopez e falava da necessidade de esperança em dias melhores. Não poderia imaginar que a vida como ela conhecia mudaria tanto.

No dia seguinte, um juiz expediu um mandado de busca para casas de ativistas. Procuravam evidências de “atividades criminosas”. Alfaro não sabia que estava na lista, e visitava amigos em Carabobo. Quando a polícia chegou à sua casa, apenas a mãe, de 79 anos, estava lá para ver os cômodos sendo revirados.

O mandato não especificava, mas um amigo avisou Anacelis para ficar longe de casa. Ela ficou uma semana escondida na casa de amigos e depois, ajudada por eles, saiu do país. Foi para Buenos Aires, na Argentina, onde se legalizou e passou a trabalhar em uma lanchonete.

— Exilada como uma dissidente, me sinto uma covarde. Mas, presa, eu seria inútil — me disse ela.

Enquanto a Venezuela vira um estado policial, milhares de pessoas fogem das dificuldades e da perseguição. Historicamente, o país sempre recebeu imigrantes, inclusive muitos que fugiram das ditaduras latinas nos anos 1960 e 1970. As chegadas de Argentina, Chile e Uruguai, por exemplo, cresceram 800% naquele período — e incluíram meus pais, que fugiram de Buenos Aires antes do golpe militar de 1976. Agora, o movimento é inverso, e os países vizinhos parecem estar “retribuindo o favor”.

Eu entrevistei dezenas de pessoas dessa diáspora venezuelana nos últimos meses. Profissionais de várias áreas, estudantes e até membros de comunidades indígenas. Por avião, ônibus ou mesmo a pé, fugiram atrás de comida, tratamento médico ou proteção.

Na Argentina, mais do que dobrou o número de permissões para residentes temporários venezuelanos a cada ano, desde 2014 — autoridades falam que já são 35.600. No Chile, o número quadruplicou. No Peru, foram mais de 10 mil só este ano. Milhares de venezuelanos aguardam resposta ao pedido de asilo no Brasil, e estão no topo da lista dos pedidos também nos Estados Unidos (cerca de 18 mil).

As entrevistas deram um novo significado ao colapso político e econômico na Venezuela. Pablo López, de 23 anos e membro da comunidade indígena Warao, foi movido pela fome. Cruzou a fronteira com o Brasil. Professora e ativista do partido Novo Tempo, Ludiskel Mass, de 32 anos, por ter descoberto um câncer. Em sua cidade, Maracaibo, médicos lhe disseram que um sangramento era causado, provavelmente, por um cisto. Mas não tinham equipamentos para um diagnóstico completo. Dois amigos pagaram sua passagem de ônibus para Lima, no Peru.

Anacelis Alfaro tem certeza de que estaria presa se ainda estivesse lá. O Fórum Penal Venezuelano, uma organização sem fins lucrativos, diz que há mais de 400 presos políticos e que, desde abril, cortes militares processaram mais de 460 civis — sobre quem não deveriam ter jurisdição.

Hoje não há instituições independentes na Venezuela para vigiar o Executivo. A Suprema Corte virou um apêndice do Palácio Miraflores desde o governo Hugo Chávez e repetidamente tem confirmado medidas que corroem a democracia e violam os direitos fundamentais. O governo de Nicolás Maduro se aproveita do monopólio da força para prender e processar críticos, desqualificar oponentes, deter jornalistas e tirar canais de TV do ar. As forças de segurança, junto com grupos armados pró-governo, reprimem protestos, matam, ferem e prendem.

Hernán González, de 40 anos, me disse no Uruguai que saiu da Venezuela depois que a Guarda Nacional matou seu irmão, Pablo, que foi detido enquanto jogava dominó na rua. O governo informou que a morte se deu em um confronto, mas o corpo de Pablo tinha sinais de tortura e um buraco de bala no peito. Sua família era radicalmente chavista, mas isso mudou com a falta de remédios e alimentos.

O governo também negou a crise humanitária causada pela economia mal administrada, e recusou ajuda estrangeira. Mas a repressão continua: em maio, alguns dias depois de ter mostrado enorme crescimento nos números de mortalidade materna e infantil e também nos registros de casos de malária, a então ministra da Saúde, Antonieta Caporale, foi simplesmente demitida.

Ao conceder refúgio aos venezuelanos, as nações sul-americanas acionaram uma válvula de escape para a crise. Mas o exílio não é uma solução definitiva: o problema são os abusos do governo Maduro.

Os líderes da região precisam redobrar a pressão sobre ele e definir uma data para novas eleições livres, sob rigorosa observação internacional. É preciso cessar a repressão, soltar os presos políticos, processar os autores de crimes contra os direitos humanos, restaurar a independência jurídica e devolver os poderes à Assembleia Nacional. Os presos, as pessoas que voltam para casa sem alimentos e aquelas que têm doenças tratáveis merecem isso, assim como os exilados que querem retornar ao país.

Anacelis Alfaro está se acostumando a Buenos Aires. Ela gosta de passear pela cidade (o que não podia fazer na Venezuela), tem amigos e colabora com oposicionistas. Mas tem saudades de casa e se sente desprotegida.

— Eu ainda voltarei ao meu pais para ajudar a reconstruí-lo — diz ela.

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