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Artigo: O empreendedor de uma grande incógnita

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O propósito do arquiteto húngaro Ernö Rubik, ao criar o quebra-cabeças tridimensional que há quatro décadas fascina crianças e adultos, era resolver um desafio estrutural: como mover de forma independente as 26 peças do seu invento sem fazer desmoronar o mecanismo inteiro. Até hoje o “cubo mágico” continua sendo o brinquedo mais vendido do mundo, com competidores obcecados em não se perder nas mais de 40 trilhões de combinações possíveis do enigma.

Esta semana, em uma de suas últimas declarações como vice-presidente, Joe Biden reconheceu a inutilidade da vivência de 44 anos como senador, e outros 8 anos como parceiro mais próximo de Barack Obama, para analisar Donald Trump. “É como tentar decifrar um cubo de Rubik. Não temos a mais vaga ideia do que ele vai fazer”, disse Biden, resumindo sem floreios a perplexidade, expectativa e ansiedade planetária.

É dentro deste quadro mais líquido do que o mundo descrito por Zygmunt Bauman que uma pergunta atropela as demais: o próprio Trump tem realmente ideia do que vai fazer, uma vez empossado 45º presidente e comandante em chefe das Forças Armadas dos Estados Unidos? E sem desmoronar o conjunto?

O novo ocupante da Casa Branca assume em condições surreais, em que nada segue o figurino, e cada instante parece trazer embutida a possibilidade de improviso ou imprevisto. A dupla internação hospitalar do estimado casal George H.W. Bush e sua mulher Barbara, ambos nonagenários, causou frisson adicional. A eventual morte do ex-presidente republicano dividiria ainda mais o foco e o noticiário de uma nação irrequieta.

Na cerimônia de posse versão 2017, uma em cada cinco cadeiras reservadas aos deputados do Partido Democrata deixarão de ser ocupadas pelos titulares. Ou seja, mais de 50 legisladores do partido que desde 1789 forneceu 15 chefes de Estado ao país optaram por boicotar a festa de chegada à Casa Branca do 18º presidente republicano.

A debandada, como se sabe, começou com o veterano John Lewis, líder histórico das marchas antissegregacionistas dos anos 1960, que qualificou o vencedor de presidente ilegítimo devido a alegada interferência russa na eleição. Trump respondeu de bate- pronto seguindo a fórmula “tuítes terra arrasada” que tanto empolga seus admiradores e deixa perplexo o campo adversário.

Na verdade, Donald John Trump nunca se desmobilizou. Talvez por ter conseguido o impensável, o estatisticamente improvável e o virtualmente impossível — atropelar sua penca de rivais republicanos e derrotar a poderosa máquina de eleger Hillary Clinton (Partido Democrata + Wall Street + Hollywood) — ele continua a agir de forma deliberadamente aguerrida e calculadamente errática para garantir seu terreno. É provável que ele continue entrincheirado mesmo depois de colocar a mão sobre a Bíblia e prestar o juramento à Constituição.

E se, de um lado, uma parcela da sociedade se diz à espreita do primeiro escorregão constitucional para entrar com um pedido de impeachment, o horizonte do novo ocupante do cargo é ambicioso. Antes mesmo de despachar pela primeira vez no cobiçado Salão Oval da Casa Branca, ele tratou de registrar seu novo slogan para 2020, quando pelo visto já vislumbra concorrer à reeleição: “Keep America Great!” (mantenha a América grande). Detalhe: no registro foram contempladas duas versões para a logomarca: uma com ponto de exclamação, outra sem.

O novo slogan seria a continuação sob medida ao retumbante “Make America Great Again”, ou MAGA (Faça a América grande de novo) que adorna camisetas, bonés e toda quinquilharia trumpiana da vitoriosa campanha de 2016. De branding Donald Trump entende.

Falta saber do que mais entende e o que pretende esse espécime novo na Casa Branca. As diferenças de visão, formação, modos e valores entre Donald Trump e seu antecessor são muito maiores do que a cor de suas peles — o que não deixa de ser um baita tributo à eleição do primeiro presidente negro nos Estados Unidos.

Meio século atrás quem sucedeu de emergência a John Kennedy, o idealizado príncipe americano assassinado em 1963, também foi um político amoral, vingativo, vulgar e pavio curto, causando um choque duplo à nação aterrada. Só que Lyndon Johnson conhecia as entranhas da vida pública como poucos e soube farejar o curso da História aprovando as leis dos Direitos Civis e a Lei dos Direitos de Voto tão aguardada pelos negros. Ainda assim afundou junto com o país no atoleiro do Vietnã.

Vários analistas preveem hecatombes genéricas para o futuro governo Trump. Richard Cohen, do “Washington Post”, é mais preciso, ao detectar um paralelo fatal entre Johnson e Trump: a contínua necessidade de ambos de se legitimar no poder. O primeiro, em relação ao mítico antecessor JFK. O atual, em relação a tudo: ao déficit de 3 milhões de votos populares que Hillary obteve nas urnas, à hostilidade da elite que ele diz desprezar, à complexidade de problemas que ele pretende simplificar para poder dominar, sua hostilidade em aceitar fatos.

Cohen define a presidência Trump como “condenada” por antecipação.

Enquanto a grande imprensa americana, segundo arguta análise de Salena Zito, leva ao pé da letra os pronunciamentos de Trump, mas não o leva a sério, seus seguidores fizeram exatamente o contrário, e por isso o elegeram: levam Trump a sério sem dar sentido literal a seus petardos verbais.

Essa massa de cidadãos que se sentiam sem rumo, horizonte, voz ou líder agora estão exultantes com um ególatra que prometeu devolver-lhes trabalho e pátria, e acaba de formar um ministério tão inescrutável quanto miliardário — a soma das fortunas acumuladas pelos futuros membros do Gabinete ultrapassa os US$ 11 bilhões.

Vale prestar atenção ao discurso inaugural de Trump para ver sua seleção de citações a heróis nacionais e antecessores na construção da nação. Quanto menor o número de referências a grandes nomes da história, maior a probabilidade de que dentro do cubo de Rubik haja lugar para somente um líder. Ele, Donald J. Trump, o empreendedor de uma grande incógnita.

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