WASHINGTON — Quando Marine Le Pen subiu ao palco para reivindicar sua vitória no primeiro turno das eleições francesas, não fez qualquer menção a mulheres, meninas ou gênero. Mas as questões de gênero desempenharam um papel significativo na campanha de sucesso que fez Le Pen alçar seu partido extremista aos corredores do poder, dizem os analistas. Em seus escritos e discursos deste ano, o assunto tem operado silenciosa e constantemente com um propósito específico: estigmatizar muçulmanos.
— Ela tem usado a questão de gênero em benefício próprio — diz Cecile Alduy, autora do livro “Retórica de Le Pen” e professora de política francesa na Universidade Stanford. — Mas sempre, e apenas, para denegrir o Islã.
O partido de Le Pen tem feito oposição aos direitos das mulheres em seus 55 anos de história, e ela mesma tem uma trajetória complicada nessa seara. Se por um lado Le Pen é a única mulher candidata em um sistema dominado por homens, do outro, como deputada, ela repetidamente votou contra propostas que pudessem melhorar a saúde e a segurança das mulheres.
Na quarta-feira, a campanha de Le Pen lançou um novo slogan para o segundo turno: “Escolha França”. Como a República Francesa tem se representado há muito tempo em um avatar feminino — Marianne, a deusa da liberdade cujo rosto adorna quase todas as prefeituras e edifícios administrativos do país — a escolha não foi destituída de significado. Em uma corrida presidencial amargamente contestada cujo foco é a identidade nacional da França, a mensagem, para alguns críticos, era bastante clara: Marianne é Marine e Marine é branca e loura.

