Já nos primeiros dias e semanas do mandato presidencial de Donald Trump, que começa hoje, teremos que manter os olhos principalmente em cinco capitais ao redor do planeta — Cidade do México, Havana, Moscou, Pequim e Jerusalém — para termos uma visão da nova política exterior americana.
No caso da Cidade do México, o mal já parece prescrito. Fim das transferências locais com um retorno ao vétero-capitalismo, o que o cientista político Ian Bremmer classificou como “unilateralismo extremo” — mais além do protecionismo, que deixará centenas de milhares de trabalhadores mexicanos da indústria automobilística sem emprego. Mais empregos para os eleitores de Trump, mas veículos mais caros para os americanos por conta da diferença nos custos.
Já com relação a Havana, o presidente eleito afirmou diversas vezes que o castrismo não sairia impune de sua Presidência, o que indica que o embargo contra a ilha caribenha deverá permanecer.
Moscou e Pequim formam, na verdade, uma unidade singular. Lá, Trump parece querer colocar em prática uma política inversa à de Richard Nixon, que, em 1972, tratou de jogar a China contra Moscou. O empresário agora pretende isolar Pequim no Mar do Sul da China, em troca do reconhecimento do importante papel da Rússia na Síria. Mas o principal ponto de discórdia é o princípio da unidade chinesa, e todo o esforço pelo reconhecimento de Taiwan poderia ser o estopim de um conflito. É o tema de prazo mais longo.
Mas o golpe mais severo seria dado com uma eventual transferência da embaixada americana de Tel Aviv a Jerusalém. A manobra preocupa a União Europeia de tal maneira que a conferência do último domingo, que reuniu representantes diplomáticos de 70 países em Paris para ratificar formalmente o apoio a uma solução com dois Estados — um israelense e um palestino — foi uma advertência a Trump para que mantenha a embaixada em seu lugar. O reconhecimento de Jerusalém como “capital única e indivisível” de Israel seria equivalente à liquidação formal da solução biestatal e um grande passo para que Israel anexasse a Cisjordânia.
Nunca uma transição nos EUA foi marcada por diferenças tão grandes entre um presidente de saída, Barack Obama, que tentou solidificar seu legado, e o que chega à Presidência, Donald Trump, que pretende despedaçá-lo. Mas dificilmente o novo presidente conseguirá ter um mandato mais catastrófico que o segundo de George W. Bush, grande responsável pela destruição do Iraque e pela tensa disputa entre xiitas e sunitas na região. Bem-vindos ao ano I da era Trump.

