Como é possível acreditar que a democracia americana seja o governo do povo, pelo povo, para o povo, se o voto popular majoritário não definiu o candidato vitorioso nesta eleição presidencial?
Em 2016, tanto o candidato mais à esquerda (Sanders) como o da direita (Trump) se queixaram de que o processo eleitoral é um jogo de cartas marcadas.
A democracia americana é indireta. Seu propósito constante é amortecer a força dos votos dos cidadãos. Antes mesmo do início das eleições primárias, os candidatos a candidato cortejam os grandes contribuintes de campanha que determinam a agenda dos nomeados. Os eleitores não têm voz nessa primária “invisível”.
As convenções que sacramentariam a escolha dos cidadãos são, como no caso dos democratas, um evento determinado pela presença dos chamados superdelegados, a elite do partido a postos para possivelmente conter a indicação de alguém indesejável. As chances de Sanders ser o candidato dos democratas eram bem pequenas e, em retrospecto, a escolha de Hillary Clinton, por sua rejeição popular, não foi a mais sensata.
Apesar das cédulas eleitorais carregarem o nome dos indicados pelos partidos, cada voto popular vai para um delegado do Colégio Eleitoral que não tem a menor obrigação de respeitar a escolha inicial de quem os elegeu. O Colégio Eleitoral é composto de delegados estaduais, o que diminui o poder dos votos das regiões americanas mais populosas. Na contagem de votos majoritários, Hillary teve quase três milhões de votos a mais do que seu oponente, mas os votos a favor de Trump, sem Califórnia ou Nova York, somaram três milhões de sufrágios a mais. Tanto um como outro argumento são bizantinos, pois o que importa são as regras do jogo.
E mais do que isso: os candidatos se veem na obrigação de apresentar soluções e políticas para um mosaico de problemas regionais. O clamor de Hillary (eleja uma mulher) era pálido diante do que afligia parte dos eleitores: desemprego, imigração, segurança.
O grande derrotado nesta eleição foi o processo democrático e seus campos conexos. Um deles, a imprensa, não só errou em suas previsões de que as chances de Trump eram mínimas, como acabou atacada e desmoralizada por ele.
A verdade, ou pelo menos sua possibilidade, sob a forma de planos a serem concretizados pelos candidatos, não teve a menor força em 2016. Trump apontou tão somente os problemas das regiões que o elegeram, seguido de adjetivos vagos. Para os eleitores, cansados de serem negligenciados e esquecidos pelas elites dos partidos, era o que bastava.
A insurreição de 2016 contra as elites partidárias não levará a uma reforma eleitoral. No máximo, ficará na memória dos eleitores quando houver, daqui a dois anos, as eleições do meio de mandato de Trump. O país sai magoado, mas não há motivo para cinismo ou desespero: é nesse momento que uma democracia mostra sua vocação profunda, a de corrigir erros passados.

