Talvez desta vez seja diferente. Talvez o número absoluto de pessoas mortas e feridas num festival de música country em Las Vegas — ao menos 59 mortos e mais de 500 feridos no maior ataque a tiros na História moderna dos EUA — finalmente levará a algum senso comum sobre restrições a armas.
Donald Trump não falou em sua posse sobre a carnificina americana real, que acontece diante de nossos olhos todo dia. Só este ano, mais de 11.700 pessoas foram mortas por armas de fogo. Como meu colega John Woodrow Cox relatou no mês passado, quase uma dezena de crianças são alvejadas todos os dias nos EUA. Mas quem tem poder de parar a matança não tem interesse.
“Nunca, jamais violarei o direito das pessoas de manter e portar armas”, prometeu nosso presidente em discurso à Associação Nacional do Rifle (NRA) em sua conferência nacional este ano.
A NRA gastou três vezes mais em anúncios políticos para Trump do que para Mitt Romney em 2012, diz o “Washington Post”. O presidente não esperou para agradecer, garantindo que aquele “ataque de oito anos às liberdades da Segunda Emenda chegaram a um fim esmagador”.
Sejamos claros sobre o que esses “ataques” foram. Mais de cem propostas de controle de armas foram apresentadas ao Congresso desde que a deputada democrata Gabrielle Giffords levou um tiro na cabeça enquanto se reunia com legisladores em um mercado de Tucson, em 2011. E não, nenhuma delas infringiu o direito de donos responsáveis portarem armas. Isso é o que esses chamados ataques fizeram: impedir que suspeitos em listas de terrorismo consigam armas; pedir a vendedores em exposições que observem as mesmas exigências legais de verificação de histórico que todos os comerciantes licenciados; e proibir a fabricação e venda de cartuchos para mais de dez balas de munição.
É muito fácil, nesse clima político divisivo, simplificar quaisquer tentativas de salvar milhares de vidas como “ataques”. Qualquer político que queira considerar prevenir cerca de 25 mil ferimentos é chamado de “sequestrador de armas” e é mal representado e vilanizado pelos altamente pesquisados ataques e mal interpretados medos que a NRA fabrica.
Toda vez, defensores de direitos de armas mudam a culpa dessas demonstrações de violência. É doença mental, dizem. É violência doméstica. É racismo. É aliança ao Estado Islâmico. É puro mal.
“Foi um ato de pura maldade”, disse Trump na manhã de ontem, anunciando planos de visitar Las Vegas na quarta-feira. Não fez menção ao armamento do atirador Stephen Paddock. No entanto, há apenas uma coisa que esses ataques em massa têm em comum: armas. Os tiroteios estão ficando mais mortais, com o número de vítimas aumentando ao longo dos anos.
Por quê? Os atiradores estão ficando mais loucos, abusivos, racistas, radicais? Ou o acesso a armas destinadas à guerra está ficando mais fácil? Paddock não teria conseguido matar 50 pessoas com uma faca. Defensores de direitos de armas vão argumentar que um terço dos atiradores em ataques em massa não deveriam ter armas sob as regulações existentes. E é verdade. Mas e os outros dois terços? Não deveríamos tornar mais difícil que destruam vidas? Os americanos já deveriam ter feito o suficiente. É hora de legisladores e presidente pararem de ouvir a NRA e começar a nos ouvir. É hora do senso comum — não do medo fabricado — fazer diferença.

