CARACAS — Os principais partidos da Mesa da Unidade Democrática (MUD) decidiram não concorrer às que o adiantou para dezembro.
— Nossa luta é conseguir que a pressão interna e internacional provoque eleições presidenciais com condições diferentes — disse Julio Borges, presidente do Parlamento.
A abstenção que uma grande parte da oposição defendia nas eleições parlamentares de 2005 fez com que a revolução começasse a levantar a atual estrutura monolítica de poder. O centrista Primero Justiça (PJ), o social-democrata Ação Democrática (AD) e Vontade Popular (VP), o partido do prisioneiro político Leopoldo López, coincidem com a Causa R, o Movimento Progresista e a Aliança Bravo Povo ao crer que a convocação é um processo fraudado e cheio de armadilhas. Quem também partilha da mesma opinião é Luis Almagro, secretário-geral da OEA.
O grupo social-cristão Um Novo Tempo (UNT) discute internamente sua participação, ainda impactado pela retirada da inabilitação de seu líder, Manuel Rosales, em outro movimento destinado a dinamitar o pouco que resta pouco da MUD. O ex-governador de Zulia forma, juntamente com Henry Ramos Allup e Henri Falcón, a ala da oposição mais predisposta a negociar com o governo revolucionário. Coincidentemente, em dezembro, as eleições para o governo desse estado também serão repetidas, após a destituicação ilegal do governador eleito Juan Pablo Guanipa.
— Ratificamos que nesta ocasião e nestas condições não participaremos — surpreendeu Ramos Allup, líder da AD, partido ao qual pertencem os quatro governadores da oposição que se subordinaram à Assembleia Nacional Constituinte da Revolução, aprofundando a crise interna na linha antichavista.
A oposição vive a sua crise mais profunda em 19 anos de chavismo, e no pior momento possível, quando o presidente Nicolás Maduro avalia adiantar as eleições presidenciais para março.
— O governo decide quem pode e quem não pode ganhar — acrescentou Tomás Guanipa, líder caraquenho do PJ.
Assim confirmaram as eleições regionais passadas, em que a oposição sofreu uma avalanche de vantagens, truques e abusos, que naquela ocasião incluía fraude numérica no rico estado de Bolívar, agora nas mãos de um general.
— O Conselho Eleitoral Nacional projeta uma nova emboscada com as eleições municipais, oprimindo de um dia para o outro o registro de candidatos — denunciou Andrés Velásquez, candidato vencedor em Bolívar.
Seu partido, a Causa R, propôs que a MUD promova eleições primárias para eleger um candidato presidencial como uma alternativa para saída do buraco negro político. Eles apoiam tanto a VP e o PJ, partidos que têm entre seus líderes López e Henrique Capriles, presos ou inabilitados.
Por enquanto, apenas o Avanzada Progresista, liderado pelo ex-governador Falcon, e o pequeno partido Ponte anunciaram que concorreriam. A MUD enfrenta um debate complexo, no qual não deixa de ser criticada. “A política geralmente é feita sob incerteza, o que não é uma desculpa para agir de forma vacilante, errática ou improvisada”, lembrou o cientista político Ángel Álvarez.

