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Agora sem armas, Farc podem esbarrar no crescimento da oposição

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BUENOS AIRES - A Colômbia deu na terça-feira um importantíssimo passo em direção à paz, mas ainda restam desafios complexos para o governo do presidente Juan Manuel Santos que, na reta final de seu segundo mandato (que termina em 2018), perdeu respaldos cruciais para avançar na aprovação de leis previstas na lista de compromissos assumidos no acordo selado com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). A entrega por parte do grupo guerrilheiro de 7.132 armas confirmou a vontade política de ambas as partes de cumprir o histórico pacto que terminou com uma guerra que matou 260 mil pessoas e deixou 60 mil desaparecidos. Mas o sucesso do processo de paz, lembraram analistas locais ouvidos pelo GLOBO, não depende apenas de Santos e das Farc. O que resta pela frente exigirá esforço e colaboração de outros setores da política e, também, da polarizada sociedade colombiana.

As ameaças que rondam o processo de paz são evidentes. Com o país já em clima de pré-campanha presidencial, opositores de Santos, essencialmente o ex-presidente Álvaro Uribe, ganharam força nas negociações parlamentares e conseguiram atrasar o ritmo da aprovação de projetos previstos no acordo. Iniciativas centrais, como a criação da chamada Justiça de Paz, que será a encarregada de julgar ex-guerrilheiros acusados de crimes de lesa-Humanidade, já obtiveram sinal verde. Outras, porém, continuam à espera de apoio para virar lei. Uma delas, parte da reforma política, é a que prevê 16 novas cadeiras na Câmara, destinadas a regiões onde o conflito armado esteve muito presente.

— Santos, que tem em torno de 20% de popularidade, sempre trabalhou com a chamada Unidade Nacional. Ele teve, durante muito tempo, o apoio dos liberais e do partido Mudança Radical, além de legendas menores. Mas isso mudou e representa um risco para a paz — explicou Felipe Botero, professor da Universidade dos Andes. — A coalizão de governo está desgastada e o Centro Democrático, de Uribe, aposta em deixar parte do acordo para o próximo governo. Se eles vencerem, isso poderia significar uma renegociação que complicaria muito o vínculo com as Farc.

A imagem dos ex-guerrilheiros entregando armas sob supervisão da ONU, poderia, na visão do analista de conflitos Pedro Santana, ajudar a “convencer setores reticentes sobre a necessidade de ajudar o governo”. Mas o cenário não está claro e a confusão, obviamente, favorece o uribismo.

— Se as pessoas entenderem que é necessário virar a página, poderemos ter esperanças — assegurou Santana, que além das barreiras parlamentares, vê outras pedras no caminho da paz colombiana. — Será muito difícil desmontar o paramilitarismo, que matou recentemente seis familiares e três guerrilheiros. Também faltam recursos econômicos para financiar os acordos de paz. Por último, há a polarização e a indiferença de mais da metade da população, que não participou do referendo de 2016.

O governo calcula que o processo de paz custará cerca de US$ 44 bilhões nos próximos 15 anos. Mas não foi especificado de onde sairá esse dinheiro e como fará o Estado para cumprir metas ambiciosas como implementar a reforma agrária, reincorporar ex-membros das Farc à vida política e social e erradicar plantações ilícitas. Uma das grandes incógnitas que paira sobre a Colômbia é saber se o país está, de fato, preparado para conviver, no dia a dia, com homens e mulheres que lutaram nas Farc.

— A ação de boicote dos partidos conservadores é intensa e somos, em essência, um país conservador — comentou Sandra Borda, também da Universidade dos Andes. — Será necessária uma adaptação de discurso, de práticas políticas, de tudo.

Ela alerta, ainda, para o “limbo jurídico” em que estão ex-guerrilheiros, enquanto aguardam a ativação da Justiça da Paz.

Mas parece difícil pensar num recuo para a Colômbia. A paz, destacou o colunista Mauricio Vargas, do “El Tiempo", “chegou para ficar”.

— Hoje vimos que para as Farc não existe retorno — frisou o jornalista.

Em artigo publicado no “El Mundo”, José Luis Barreiro, diretor da associação Ação contra a Fome na Colômbia, listou os desafios para a paz em seu país, entre eles, a segurança nas regiões desmobilizadas, alternativas econômicas para substituir o narcotráfico, confiança no processo de paz e esforço humano e financeiro. “A paz ainda não pode cantar vitória na Colômbia”, enfatizou.

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