BOSTON — O inédito bombardeio americano a tropas leais ao ditador Bashar Al-Assad geram uma certeza e duas grandes interrogações: mostram que Donald Trump mudou de postura e isso pode gerar ganhos internos nos EUA para o republicano, mas ao mesmo tempo serve como um teste sobre a relação com os russos e tende a levar os Estados Unidos ao caminho pantanoso de uma guerra civil complexa e com poderosas forças longe de um acordo.
Até democratas passaram a pedir uma ação mais enérgica do governo americano contra a Síria depois do ataque químico que chocou o mundo. Assim, Trump aparece como um líder forte, que não se dobra e que resolveu encarar o problema de frente, gerando crítica indireta a Barack Obama, antecessor que teve na escalada da guerra síria e na crise dos refugiados um dos maiores borrões em seu período na Casa Branca. O republicano deve surfar na onde e usar este bombardeiro para tentar com que seus eleitores esqueçam que ele não conseguiu uma de suas promessas: revogar e substituir o Obamacare, mesmo com maioria legislativa.
Mas os maiores desafios estão na área militar. Há uma semana o governo Trump mostrava um descaso sobre Assad que aproximava Washington do Kremlin, maior defensor do ditador. Ao atacar suas tropas, Trump pode estar comprando uma briga com o país de Vladimir Putin. O fato do Pentágono ter avisado Moscou previamente do ataque ainda demonstra uma preocupação com os russos. Eles também estão mudando de posição? Se sim, porque Putin daria os créditos da ação a Trump a primazia da nova retórica? Ou, conforme a reação oficial da nota oficial, os russos estão criticando os EUA é verdadeira e as duas potências estão em eita de colisão?
Por fim, se um bombardeio deste tem impacto midiático - outra fascinação do presidente americano -, exige uma série de próximos passos que os EUA não demonstrar estar prontos a dar. Além acabar com a premissa de que os Estados Unidos não querem mais o país em guerras que gerem baixas de americanos, o bombardeio reembaralha o peso relativo dos atores no conflito russo, de curdos a iranianos, de franceses a sauditas. Um acordo sobre o futuro da região parece ter ficado ainda mais distante. E, caso isso venha a ocorrer, será necessário estabilizar a siria, com uma ação militar de solo que semelhante ao do Iraque, com grandes perdas. Trump pensou nisso e tem estratégia ou foi mais uma decisão impensada?
Ainda é cedo para mensurar o real impacto dos mísseis americanos, mas o episódio serve pra demonstrar que, se até então o governo republicano viveu de polêmicas mais previsíveis , decidiu agora abraçar de vez a tendência militar e entrar em um terreno novo, sepultando definitivamente os anos Obama, onde os EUA deixaram de ser temidos para serem admirados, onde o multilateralismo era a regra no lugar do unilateralismo. Ao que tudo indica, o tempo do medo voltou para ficar.

