BERLIM — Subestimada ao ser escolhida pelo então chanceler Helmut Kohl para integrar oGabinete do primeiro governo da Alemanha reunificada, em 1990, Angela Merkel parece estar perto de obter seu quarto mandato para comandar o país. Com seu estilo sóbrio e capacidade de superar problemas, a mulher mais poderosa da Europa conseguiu mudar seu partido, a União Democrata Cristã (CDU), e a Alemanha. Para analistas, a política pouco carismática foi ajudada por uma fase de ouro para a economia alemã, que apresenta um bom desempenho e a queda do desemprego. Mas foi por sobreviver às diversas crises — como as do euro, do Brexit e dos refugiados, a que mais ofereceu riscos ao seu governo — que conseguiu se distanciar dos concorrentes, como o candidato do Partido Social Democrata (SPD), Martin Schulz, o ex-presidente do Parlamento Europeu, que chegou a liderar a campanha, mas perdeu pontos, hoje aparecendo em segundo lugar nas pesquisas.
— Em um país onde a situação econômica está relativamente boa, as pessoas não sentem a necessidade de mudar, embora haja um alto grau de insatisfação e de insegurança em relação ao futuro — explica Frank Stauss, especialista na organização de campanhas eleitorais.
Ainda há um terço de indecisos, mas os institutos de pesquisas indicam que Merkel deve ser a mais votada. O que não está certo é com quem ela vai governar no seu quarto mandato. A sua opção preferida é uma aliança CDU/CSU (União Social Cristã) com os liberais do Partido Liberal Democrata (FDP) de Christian Lindner. A combinação mais temida, por políticos e analistas, é a de uma “nova grande coalizão” dos dois maiores, CDU/CSU, com o SPD, como atualmente, o que poderia dar mais impulso à extrema-direita.
— Uma grande coalizão pela terceira vez desde 2005 significa uma oposição fraca no Parlamento e, na falta de opção, um crescimento ainda maior da extrema-direita — acredita a ex-deputada federal da CDU Vera Lengsfeld.
Para Frank Stauss, Merkel não é amada, mas respeitada pelos alemães porque evitou polêmicas e sugou como um aspirador os conteúdos do SPD e dos Verdes, tornando as duas legendas dispensáveis para a maioria dos eleitores. Depois de ficar com quase 40% dos votos no governo de Gerhard Schroeder, o efeito Merkel fez os sociais-democratas despencarem para índices de 21% a 25%.
— Merkel é uma política liberal que tem votos de membros da esquerda, que antes eram contra a CDU, mas que estão dispostos a votar nela porque não a consideram conservadora — diz Lengsfeld, que conhece Merkel desde a queda do Muro de Berlim, quando as duas começaram a despontar politicamente na então Berlim Oriental.
Durante os 12 anos de governo Merkel, a Alemanha passou por mudanças profundas, que antes faziam parte da plataforma da esquerda. A primeira grande guinada da candidata eleita em 2005 foi jogar o programa neoliberal no lixo e fazer tudo diferente do que havia anunciado. Já nos primeiros anos do governo Merkel foi adotado um modelo que antes existia apenas na Alemanha Oriental, o sistema de creches para todas as crianças do país — algo típico do regime comunista. Em 2011, uma nova guinada. Reagindo ao acidente de Fukushima, a chanceler anunciou:
— Fukushima fez com que eu mudasse a minha opinião sobre a energia nuclear.
Da noite para o dia, foi apresentada uma lei, mais tarde aprovada no Parlamento, prevendo o fechamento da última usina nuclear do país em 2022, projeto ainda mais radical do que o do governo de Schroeder com os Verdes.
A lei do casamento para todos (incluindo pessoas do mesmo sexo) e a política de boas-vindas para os refugiados são dois programas que mais parecem ter a assinatura dos Verdes.
Mas a crise dos refugiados quase custou a Merkel o seu governo, quando centenas de milhares entraram no país e os mais conservadores da CDU/CSU bombardearam a chanceler com criticas e ameaças. Só depois do Brexit, quando ela passou a encenar com mais convicção o papel de estadista europeia, a situação começou a mudar, e sua popularidade foi solidificada como uma antítese a Donald Trump nos Estados Unidos e a ameaça da extrema-direita na Europa.
— Com Merkel, a CDU abriu mão de todos os seus dogmas — diz Werner Patzelt, cientista político da Universidade de Dresden.
Por outro lado, as reações a Merkel resultaram na criação de um partido que depois de apenas cinco anos já integra mais de dez Parlamentos (estaduais e o Europeu) e caminha para ser eleito pela primeira vez para o federal. As pesquisas indicam que Alternativa para a Alemanha (AfD) será o terceiro mais votado, sem chance de participar do governo, mas com poder para atrapalhar as possíveis coalizões. Heiko Poppe, do diretório municipal do partido “A esquerda” em Prenzlau, Brandemburgo, vê o risco de o AfD alcançar mais de 20%.
Quem acompanha a líder política, que começou a carreira como secretária-geral para agitação e propaganda da organização comunista FDJ, acrescenta nesses 12 anos também outros aspectos negativos, como a insatisfação entre a população do Leste alemão. Dias atrás, ela foi bombardeada com tomates em Wolgast, estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, seu reduto eleitoral. Um calvário repetido em outras cidades, como Torgau, Finsterwald, Quedlinburg ou Bitterfeld.
Para a jornalista Jana Hensel, autora do livro “Zonenkinder” (crianças da região, expressão usada para os jovens do bloco comunista), os protestos traduzem uma enorme insatisfação popular, que cresceu com a crise dos refugiados e é estimulada pela extrema-direita do Pegida (Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente) e do AfD.
Quem vê essas cidades, seja Torgau ou Dresden, não entende a insatisfação. Os prédios antigos nos centros foram meticulosamente restaurados, as ruas estão perfeitas. Heiko Poppe crê que o que mais enfurece as pessoas é “a riqueza de fachada”. Tudo foi pintado, mas as indústrias fechadas após a reunificação não foram recuperadas. O desemprego é de mais de 13% em Prenzlau, a 30 quilômetros de Templin, no Uckermark, onde vive a mãe de Merkel e a chanceler tem a sua datscha (casa de férias).
— As pessoas ficam furiosas com ela porque veem uma indiferença em seu governo. Desde a crise dos refugiados, a aversão contra Merkel é maior — conclui Poppe.
Martin Schulz chegou a Berlim como um furacão após deixar a presidência do Parlamento Europeu, superando Merkel nas pesquisas. Mas não conseguiu o equilíbrio entre atacar a adversária sem criticar o governo do qual o SPD participou em dois mandatos da chanceler.
O partido de extrema-direita lançou dois candidatos para liderar sua campanha ao Parlamento: o advogado e jornalista Alexander Gauland e a economista Alice Weidel. Saído da CDU, Gauland gerou polêmica com declarações xenofóbicas. Alice ficou conhecida após ameaçar processar Merkel pela “ocupação do espaço público por muçulmanos”.
Cem Özdemir é o primeiro descendente turco a presidir um partido alemão. Filho de imigrantes chegados ao país na década de 1960, ingressou no Partido Verde quando este era ainda um movimento ecológico. Ele integra a ala que admite, pela primeira vez, a possibilidade de uma aliança com a CDU da chanceler Angela Merkel.
Também lançou dois candidatos: Dietmar Bartsch e Sahra Wagenknecht. Ele foi membro do SED, o Partido Comunista alemão oriental, até a queda do muro. No final defendeu a abertura do regime e hoje faz parte dos moderados que defendem a aproximação com SPD e Verdes para desafiar a CDU. Filha de um iraniano, Sahra é considerada mais radical.

