A dinâmica do conflito norte-coreano durante a última década converteu-se numa liturgia: Pyongyang efetua um teste nuclear ou de mísseis balísticos, a comunidade internacional se indigna e a ONU aprova sanções econômicas contra o regime, que responde com ensaios cada vez mais recorrentes e com avanços notáveis. Este círculo vicioso e a nula capacidade de dissuadir a Coreia do Norte levaram Trump a dizer que “conversar não é a resposta”, mas vários especialistas defendem justamente o contrário: descartando um conflito armado, que seria catastrófico, a única opção passa pelo diálogo com Kim Jong-un.
A primeira pergunta é por que as sete levas de sanções econômicas contra a Coreia do Norte não surtiram efeito. A resposta é que elas não são suficientemente duras para ameaçar diretamente a estabilidade do regime norte-coreano. Mas o problema de levar a cabo um movimento deste calibre é que ele não conseguiria o consenso do Conselho de Segurança da ONU. A Rússia e, principalmente, a China não estão dispostas a ir tão longe nos riscos envolvidos na desestabilização da Coreia do Norte. Até os EUA já disseram publicamente que derrocar o regime é uma opção arriscada demais e que a sua aposta é forçar uma “mudança de política” no país asiático. Ninguém questiona que a pressão econômica deva continuar, mas os analistas concordam que a via diplomática deveria ganhar força.
— Os EUA têm que retomar o diálogo bilateral. Se querem resolver os problemas de segurança, devem falar com Pyongyang sobre soluções pacíficas — diz Dean J. Oulette, professor da Universidade de Kyungnam, em Seul.
O problema é que, historicamente, os compromissos da Coreia do Norte se provaram sem fundamento. Em outras negociações, nos anos 1990 e 2000, Pyongyang não respeitou os prazos para desmantelar instalações nucleares e expulsou os supervisores dos avanços. Para Zhao Tong, analista do centro Carnegie-Tsinghua em Pequim, a dificuldade reside na enorme falta de confiança norte-coreana nas outras partes, incluindo a China:
— As responsabilidades dos dois lados são assimétricas. A americana se baseia no compromisso político de não ameaçar a Coreia do Norte, do qual poderia se desvincular facilmente. Para Pyongyang, trata-se de uma mudança substancial das suas capacidades materiais, o que é irreversível ou muito difícil de reverter. É muito difícil para a Coreia do Norte confiar num acordo deste tipo.

