Lá na esquina da rua, debaixo da mangueira que serve de gabinete popular, Seu Raimundo nem terminou o café quando Seu Djalma chegou abanando o chapéu.
— Rapaz, liguei a televisão e adivinha o assunto?
— Política?
— Quase.
— Saúde?
— Quase também.
— Então é Sisreg.
Seu Djalma deu uma risada daquelas.
— Acertei de primeira?
— Hoje em dia é mais fácil acertar Sisreg do que número da Mega-Sena.
Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, daqueles em que o sabiá canta e o calor faz até o cachorro procurar sombra.
— Tu reparaste? — continuou Seu Raimundo. — A doutora é Chibata mesmo fala com propriedade. Médica experiente, conhece os corredores dos hospitais, entende de fila, de cirurgia represada, de média e alta complexidade. Quando pega no microfone, parece que está fazendo uma consulta coletiva no Amazonas inteiro.
— E qual o remédio?
— Pelo que eu ouvi... o diagnóstico é Sisreg.
— E a receita?
— Sisreg.
— E o retorno?
— Sisreg de novo.
Seu Djalma coçou a cabeça.
— Desse jeito, qualquer dia o papagaio lá de casa ao invés de falar "bom dia" vai falar "Sisreg".
Os dois caíram na gargalhada.
A verdade é que o amazonense já conhece o roteiro. Se o assunto é saúde, aparece alguém dizendo que o problema começou ontem. O outro responde que começou antes. Um terceiro diz que vem de décadas. No fim, o paciente continua esperando a consulta enquanto os discursos disputam quem encontra o culpado primeiro.
— Mas uma coisa eu admiro — disse Seu Raimundo.
— O quê?
— A memória dos candidatos. Em época de eleição eles lembram de cada corredor de hospital, de cada maca, de cada fila, de cada exame. Parece até que decoraram o mapa inteiro da rede pública.
— Depois da eleição alguns até desaprendem o caminho.
Os dois olharam um para o outro e voltaram a rir.
Porque, no Amazonas, a política às vezes parece consulta médica. O candidato examina, aponta os sintomas, faz um diagnóstico impecável, explica as causas com riqueza de detalhes...
Só que o eleitor, sentado na sala de espera há anos, continua fazendo a mesma pergunta:
— Doutor... e o tratamento começa quando?
E foi nesse momento que Seu Djalma terminou o café e soltou a frase que ficou ecoando pela calçada:
— Falar do problema é importante. Resolver é que deveria virar a especialidade.
Silvia Simões
Cirurgiã Dentista universidade Federal do Amazonas- Especialista em Odontologia – Saúde Pública – Universidade Federal do Amazonas- Especialista MBA em Administração Hospitalar e Gestão de Serviços de Saúde – Universidade Nilton Lins- Especialista MBA em Gestão de Cooperativas – Faculdades Integradas de Taquara-Mestra em Clínicas Odontológicas – Centro de Ensino e Pesquisa de Pós-Graduação do Norte – Professora Universitária- Coordenadora do Curso de Odontologia Hospitalar- Membro da Academia de Literatura, Arte e Cultura da Amazônia (ALACA)-Ex- Diretora Administrativa do sicoob [email protected]
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