O El Niño chegou ao Amazonas e, segundo o médico Noaldo Oliveira Lucena, deve intensificar períodos de seca e queimadas, com consequências diretas para a saúde da população. O especialista esteve nesta quarta-feira (21) no programa “Leia a Bula”, do Portal do Holanda, comandado pela farmacêutica e terapeuta Ednilza Guedes, onde falou sobre os efeitos da fumaça no organismo.
Seca mais intensa à vista
De acordo com o especialista, a comunidade científica já alertava para a possibilidade de um “Super El Niño”. Ele explicou que a elevação da temperatura do Oceano Pacífico neste ano, de cerca de quatro graus e meio, aumenta a probabilidade de uma estiagem mais profunda, semelhante à registrada em 2023.
Lucena afirmou que os ciclos de seca e chuva são naturais, mas que o intervalo entre eventos extremos tem diminuído. “De 2023 para cá, temos visto verões cada vez mais severos”, observou. O médico também ressaltou que, caso os incêndios tenham origem criminosa, o problema é ainda mais grave, pois quem provoca o fogo acaba prejudicando a si mesmo.
O que a fumaça faz no corpo
O médico detalhou que a fumaça é composta por fuligem, cinzas e material particulado, medidos em micrômetros (micras). O tamanho das partículas determina o tamanho do estrago:
Até 10 micras: ficam retidas principalmente no nariz e causam olhos ressecados, lacrimejamento, ardência, tontura e mal-estar.
Menos de 2,5 micras: alcançam regiões mais profundas do sistema respiratório, inclusive os alvéolos, onde ocorre a troca gasosa.
Em torno de 0,1 micra: podem chegar à corrente sanguínea e provocar pneumonias, agravar a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e contribuir para problemas cardiovasculares.
Segundo Lucena, houve aumento de doenças cardiovasculares, infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVCs), principalmente entre idosos, gestantes, crianças e pessoas que já têm doenças crônicas. Ele lembrou ainda que não é só a mata que queima: lixões a céu aberto também liberam partículas nocivas.
O médico criticou a prática de exercícios ao ar livre em dias de fumaça. Para ele, o fato de jovens saudáveis não sentirem sintomas imediatos não significa que estejam protegidos, e comparou o efeito acumulado ao do tabagismo.
Máscaras: qual usar e como
Lucena recomenda a máscara do tipo N95 (PFF2), capaz de filtrar até 95% das partículas pequenas. Segundo ele, o uso correto é essencial:
a máscara deve vedar bem a região do nariz;
quem tem barba deve retirá-la para garantir a vedação adequada;
é preciso evitar manipular a máscara com as mãos sujas.
O médico estimou que a unidade custe cerca de R$ 8, valor que, segundo ele, precisa ser conferido. Para quem não tem acesso à N95, o especialista afirmou que “qualquer máscara é melhor do que nada”. A máscara cirúrgica ou a de pano pode ser usada, desde que a de pano seja trocada e lavada a cada quatro a seis horas. Dentro de casa, o uso não é necessário.
Alternativas para quem não tem ar-condicionado
Para a população de baixa renda, que muitas vezes precisa trabalhar na rua sob calor de 38 a 40 graus, o médico sugeriu medidas simples para umidificar o ambiente:
manter a casa fechada;
colocar uma bacia com água e pedras de gelo diante do ventilador;
após o banho, pendurar a toalha molhada dentro de casa para secar.
Em caso de sintomas, a orientação é procurar um serviço de pronto atendimento.
Alerta para os próximos dias
Lucena advertiu que a chegada das chuvas não deve gerar falsa sensação de segurança. Segundo a previsão meteorológica citada por ele, o tempo seco e as altas temperaturas devem voltar nos próximos dias, o que pode reacender as queimadas. Se isso ocorrer, ele pede que a população siga as orientações de proteção.
O médico atende dúvidas pelo perfil @drnoaldolucena nas redes sociais.
Aviso