Em razão dessa abundância de noticiário sobre corrupção, falcatruas, desvios de comportamento, abastardamento da vida pública, tudo espalhado pela imensidão do solo pátrio, e agora com a comprovação que o Xandão está totalmente e umbilicalmente ligado a Vorcaro, fiquei em dificuldades na escolha do tema para a crônica semanal. Não voltaria a falar no banco Master e outras porcarias para fadigar o leitor. Às vezes, padece de total carência de inspiração para abordar a amplitude dos fenômenos que acontecem à sua volta.
É um sofrimento. Fico a matutar como alguns, cronistas políticos, conseguem diariamente um assunto novo, tratando-o com a maestria de sempre. Imagino como sofrem outros obrigados a garimpar no dia a dia temas nem sempre apetitosos, edulcorando-os para agrado do leitor cada vez mais exigente. Nesse imenso cipoal de notícias pouco saborosas, decidi falar sobre ética novamente. Ética. Por onde começar? Que tal começar por aquela, pequenininha, chamada simplesmente de etiqueta, tão chamuscada pelo rótulo de elitista ou pequeno-burguesa.
A que exige de todos tratar adequadamente as pessoas, indistintamente. Em todos os lugares e nas situações mais comezinhas. A constância de atitudes exteriores em consonância com padrões morais consolidaria a autonomia no interior de cada agente moral, formando seu ethos, seu caráter. Tomemos como exemplo o trânsito nas grandes cidades brasileiras, especialmente em Manaus. Não tenho qualquer procuração do Detran para afirmar que o comportamento dos motoristas é um bom indicativo do nível de civilidade das pessoas. É uma conclusão que deriva do senso comum.
Entre nós, é fácil verificar que alguns animais, que se dizem racionais, costumam portar-se ao volante como se estivessem numa competição. Nela, tentam exibir toda a versatilidade do seu veículo, com grosseiras ultrapassagens e estúpida velocidade. Uma regra básica deveria prevalecer: quanto mais sofisticada a máquina, mais sofisticado deveria ser o caráter de quem a conduz. Não se deveria confundir um automóvel com um instrumento a serviço do mau-caratismo ou da afirmação de mentecaptos de obtusa personalidade. A ira que desperta o comportamento desrespeitoso de alguns gera uma competição predatória que põe em risco a vida de inocentes. As autoridades deverão cuidar da legislação e de fazê-la cumprir. Deverão cuidar das oportunidades de educação no trânsito.
Mas não poderão cuidar de tudo, nem tratar a todos como se fossem bebês. Deverão responsabilizar juridicamente infratores. Mas a responsabilidade moral da educação depende de uma atitude interna, que alcança cada cidadão, pedestre ou motorista. A linha privada de nossas vidas não é paralela à linha de nossa vida pública, mantendo pontos comuns. O respeito pelo outro é uma virtude no trato que devotamos a familiares, amigos, colegas de trabalho, mas também às pessoas com quem convivemos, independentemente de nutrir ou não afeto.
O espírito de cooperação e não de competição deveria prevalecer num trânsito caótico, gerado por uma frota que cresce geometricamente, enquanto as vias públicas têm limitação aritmética. O xingamento em nada ajuda.
Flávio Lauria
Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Universidade Federal do Amazonas, mestrado em Administração Pública também pela UFAM e doutorado pela Universidade de Barcelona na Espanha. Foi Secretário Municipal de Administração, Diretor de Planejamento do Tribunal de Contas do Amazonas, e atualmente é Consultor de Empresas com ênfase em Planejamento Estratégico.
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