Na medicina popular amazônica e em outras regiões do Brasil, a casca do ipê-roxo é tradicionalmente raspada e preparada em chá ou decocção, tomada de duas a quatro vezes ao dia. A crença popular atribui à bebida a capacidade de tratar inflamações, câncer de útero e de próstata, infecção nos rins, problemas de pele, doenças do coração, derrame, pressão alta, prisão de ventre, inflamação no fígado e até infecções sexualmente transmissíveis.
O interesse da ciência pela planta não é recente: o lapachol, uma das substâncias mais abundantes na casca do ipê-roxo, foi isolado ainda em 1858 e é hoje uma das quinonas mais estudadas da família de árvores a que o ipê pertence. Em testes de laboratório, extratos da planta já mostraram efeito tóxico contra células de câncer, ação antioxidante, e capacidade de combater bactérias — inclusive a que causa gastrite — e fungos. Em animais, os mesmos extratos reduziram dor e inflamação, ajudaram feridas a cicatrizar por completo em duas semanas, protegeram a mucosa do estômago e diminuíram sinais de comportamento depressivo.
O problema é o salto entre esses resultados e a crença de que o chá cura doenças graves em pessoas: não existe, até hoje, nenhum estudo clínico com humanos testando o ipê-roxo. Toda a base científica vem de tubo de ensaio e de modelos animais, uma etapa anterior à que comprovaria se a planta funciona e é segura para o corpo humano. Não por acaso, o ipê-roxo não está na lista de fitoterápicos de registro simplificado da Anvisa, e o último produto com lapachol isolado registrado como medicamento no Brasil saiu do mercado ainda em 2013 — hoje não existe nenhum remédio com a planta oficialmente registrado no país.
O uso do chá também não é livre de riscos: a orientação popular já desaconselha o consumo por crianças, gestantes, mulheres menstruadas e hipertensos que usam preparações com álcool. Mais grave é a interação com remédios: o lapachol tem propriedade anticoagulante e pode alterar a resposta do corpo a medicamentos como a varfarina, além de possivelmente interferir na ação de uma enzima do fígado responsável por processar diversos outros remédios. Por isso, o chá de ipê-roxo não substitui orientação médica, e quem já toma medicação contínua — sobretudo anticoagulantes — deve conversar com um profissional de saúde antes de consumi-lo.




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