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Presa em SC ao se passar por criança de 12 anos é suspeita de aplicar outro golpe no PR

Estadão

Amanda Maria Souza de Oliveira, de 37 anos, presa em Joinville (SC) por se passar por uma criança de 12 anos e viver por 14 meses como filha adotiva na casa de uma família, é suspeita de aplicar golpes em um grupo católico de oração de mais de dez pessoas em Colombo, na região metropolitana de Curitiba (PR). A Polícia Civil do Paraná informou nesta terça-feira, 9, que retomou a investigação do caso, registrado em dezembro de 2022. O Estadão tenta localizar a defesa de Amanda.

A relação entre Amanda e o grupo de oração no Paraná teria começado durante a pandemia, em 2021, e durado cerca de um ano de forma remota.

Uma mulher, parte do grupo de oração supostamente vítima do golpe, afirma ter reconhecido Amanda após ela ser presa em Santa Catarina. Ela conta que criou forte vínculo afetivo na época com Amanda, que se apresentava como uma adolescente em tratamento de câncer - e que chegou a fazer uma tatuagem no pulso com o nome falso usado pela suspeita.

"Essa golpista é um gênio do mal. É muito astuta, sabe como envolver as pessoas", afirma a advogada Caroline Rangel, que representa o grupo do Paraná. "A gente falando assim, superficialmente, beira ao ridículo, mas quando escuta e se debruça sobre as provas, percebe que essa mulher é muito maquiavélica, uma das ‘melhores’ estelionatárias que vi até hoje", diz.

Segundo a notícia-crime apresentada à polícia, a relação entre "Emily", nome que teria sido usado pela suspeita, e o grupo de oração começou em meados de março de 2021. Os religiosos haviam se reunido para fazer orações por pessoas com covid-19 e, mais tarde, estenderam as preces para pessoas com outras doenças. Foi aí que Emily, que dizia ter 13 anos, contou estar com leucemia.

A história criada pela suspeita era complexa. A mulher que tatuou o nome dela foi quem mais se envolveu emocionalmente, chegando a tratar a suposta adolescente como afilhada. A suspeita, conforme a notícia-crime, usava outros números de telefone para se passar também pelos pais e avó de Emily. Os números eram registrados em Minas Gerais e São Paulo.

Durante os meses em que mantiveram contato, a suspeita teria inventado, por exemplo, que a mãe morreu em um procedimento cirúrgico depois de um acidente de carro e que o pai, com quem tinha problemas por diferenças religiosas, foi internado em uma clínica psiquiátrica depois que um parente policial federal descobriu que ele mandava pornografia para a adolescente por redes sociais. O pai teria se suicidado na clínica.

Nesse contexto, a suspeita teria passado a morar com uma avó - que também conversava com membros do grupo apenas por mensagens de telefone.

Durante todo o tempo, a suposta adolescente se recusou a se encontrar com a mulher que tatuou seu falso nome. Para isso, ela inventou desculpas como metástase da doença e outras situações, como um suposto estupro sofrido durante a internação no hospital.

A advogada das vítimas conta que o envolvimento emocional foi tamanho que a "madrinha" chegou a brigar com o irmão, que desconfiava da história, e a colocar o casamento em risco. Outros membros do grupo também relataram brigas com familiares pela mesma razão. "(A vítima que tatuou o nome) tinha perdido a cunhada grávida para a covid-19. Estava fragilizada. A golpista fazia uso disso, falava que tinha visto a cunhada dela em um sonho e disse que a amava", afirma Caroline Rangel.

Pedidos de dinheiro e desconfiança

A suspeita levou cerca de seis meses para começar a pedir dinheiro para as vítimas. Segundo a advogada, os valores enviados foram baixos. "O dinheiro não era o foco principal, ela queria mesmo era atenção constante", explica Caroline. Em geral, as quantias enviadas por Pix eram de R$ 50 a R$ 100, em situações específicas.

O golpe começou a ruir em novembro de 2021. Um dos integrantes do grupo, suspeitando da história, entrou em contato com hospitais solicitando informações sobre a "Emily" e não encontrou nenhum registro. No mesmo mês, outra integrante pediu para conversar com uma suposta tia da golpista por videochamada.

A parente seria uma jovem universitária estudante de Psicologia, moradora de São Paulo. Ao ligar a câmera, a integrante do grupo de oração percebeu que a suposta tia e a adolescente eram a mesma pessoa. Em contatos anteriores por vídeo ou foto, a golpista sempre utilizava máscara ou peças que cobriam parte do rosto.

A notícia-crime indica que, após ser pressionada, a suspeita confessou que estava mentindo para o grupo e que não era uma criança doente, mas sim uma mulher adulta em perfeitas condições de saúde. "O modus operandi dela nos golpes em diferentes Estados é o mesmo", diz a advogada.

Procurada pelo Estadão , a Polícia Civil do Paraná informou que o inquérito havia sido instaurado em dezembro de 2022. "À época, a equipe policial adotou todas as diligências necessárias para esclarecimento do caso, mas não foi possível chegar à autoria do crime", disse. O comunicado também explicou que as vítimas serão intimadas para que façam o procedimento de reconhecimento da suspeita.

De acordo com a Polícia Civil de Santa Catarina, as diligências apontaram que a mulher presa é reincidente - acumula antecedentes penais por golpes idênticos nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Goiás.

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