Parada de ônibus, terminais lotados e passageiros sem opção de transporte: a paralisação registrada nesta terça-feira em Manaus é mais um capítulo de um conflito que se repete há anos entre motoristas, cobradores, empresas de ônibus e o poder público. Na maioria dos casos, o estopim é o mesmo — atraso no pagamento dos salários dos rodoviários —, mas o problema de fundo é uma briga antiga sobre quem deve bancar o Passe Livre Estudantil e os subsídios do transporte coletivo na capital amazonense.
O episódio mais violento da história recente aconteceu em 2018, quando uma greve de sete dias terminou em confronto direto com a população: mais de 60 ônibus foram apedrejados por passageiros revoltados nos Terminais 3 e 4 e em bairros como Petrópolis e Vila Marinho, houve três tentativas de incêndio a veículos e cinco pessoas foram detidas, com reforço de tropa de choque nas ruas.
Nos últimos dois anos, as paralisações voltaram a virar rotina, somando dezenas de interrupções só em 2024. Em agosto e setembro de 2025, novas rodadas de atraso salarial levaram a paralisações parciais e totais, com acordos de última hora evitando o pior: em 25 de agosto, a Prefeitura de Manaus intermediou um entendimento na véspera de uma greve marcada, e em 25 de novembro o pagamento do vale-alimentação foi confirmado horas antes do início de uma nova paralisação.
Agora, em setembro de 2026, a paralisação-surpresa desta terça-feira, motivada por três dias de salário atrasado, repete um padrão quase anual: sem solução definitiva para o financiamento do transporte coletivo, Manaus segue refém de novas greves de rodoviários.
Linha do tempo da paralisações
10/04/2012 — greve de motoristas deixa Manaus sem ônibus (manchete de capa do Portal do Holanda; detalhes do motivo não especificados na fonte).
01/02/2013 — motoristas e cobradores da empresa Líder entram em greve; Zona Leste da cidade fica sem ônibus.
20/02/2013 — TRT acata ação do sindicato patronal e greve de ônibus é descartada antes de começar.
26/06/2017 — greve geral desafia decisão do TRT que proibia a paralisação (o sindicato ignorou a liminar); 800 mil pessoas ficam sem transporte; na semana anterior já haviam ocorrido 5 paralisações menores, cada uma afetando ~100 mil pessoas; motoristas ganhavam R$ 3.078,43 (2º maior salário da categoria no Brasil) após reajuste de 10% concedido em abril daquele ano; Justiça autorizou multa de até R$ 100 mil/hora e intervenção policial.
25/01/2018 — greve-relâmpago prejudica cerca de 2 mil pessoas, segundo o Sinetram (sindicato patronal); mesma data, decisão judicial critica conduta de rodoviários e empresas.
05/02/2018 — nova paralisação afeta mais de 20 mil pessoas.
29/05/2018 a 04/06/2018 — a mais violenta da década: 7 dias de greve terminam em depredação de mais de 60 ônibus (pedradas, vidros quebrados) nos Terminais 3 e 4 e bairros como Petrópolis e Vila Marinho, com três tentativas de incêndio a veículos, 5 detidos e reforço de tropa de choque; ~100 mil pessoas afetadas, 5 escolas suspendem aulas da tarde.
04/01/2020 — rodoviários cruzam os braços para cobrar pagamentos atrasados.
23/04/2020 — greve isolada na Viação Tabuazeiro (uma das empresas do sistema), por atraso salarial, no início da pandemia; nenhum ônibus sai da garagem no bairro Serra.
25/08/2025 — greve marcada para o dia seguinte é cancelada na véspera após acordo intermediado pela Prefeitura (IMMU) entre sindicato e Sinetram.
11/09/2025 — paralisação parcial pela manhã, ampliada para greve total à tarde, por atraso no salário de agosto; ~500 mil passageiros afetados; protesto na porta do Governo do Amazonas.
25/11/2025 — paralisação espontânea, sem coordenação formal do sindicato, por atraso no vale-alimentação (que devia ter sido pago no dia 20); resolvida no mesmo dia.
10/02/2026 — greve-relâmpago de ~2h por atraso salarial ligado ao passe estudantil; protesto no TRT-11; suspensa após garantia de pagamento no mesmo dia.
23/06/2026 — ameaça de paralisação às 14h por salários atrasados desde o dia 20.
01/07/2026 — assembleia da categoria aprova greve.
07/07/2026 — nova paralisação por não pagamento de 40% do salário de junho.
20/07/2026 a 22/07/2026 — a maior crise recente: greve total de 3 dias; embate público entre Prefeitura de Manaus e Governo do Amazonas sobre dívida do Passe Livre Estudantil (R$ 190,4 milhões segundo a prefeitura, R$ 18 milhões segundo o estado); TRT-11 classifica a greve como abusiva (sindicato não deu aviso prévio de 72h) e determina frota mínima de 80% no pico e 50% fora dele, sob multa de R$ 120 mil/hora, além de proibir bloqueio de garagens.
24/07/2026 — balanço da crise: mais de 600 mil usuários afetados, preço de corridas por aplicativo chega a dobrar na cidade.
20/08/2026 — greve à parte, de motoristas do transporte especial/fretado (~4 mil trabalhadores) por reajuste salarial; bloqueios em vias como Torquato Tapajós e Ponte Rio Negro; câmeras registram briga entre grupos de trabalhadores.
22/09/2026 — greve-surpresa mais recente (a notícia que originou nossa conversa): rodoviários cobram três dias de salário atrasado; terminais T1, T3, T4 e T5 afetados.
O padrão se repete há mais de uma década: praticamente toda greve nasce de atraso de pagamento das empresas de ônibus, e desde 2025 o conflito ganhou um segundo eixo — a disputa entre prefeitura e governo do estado sobre quem banca o Passe Livre Estudantil. O episódio de maio/junho de 2018 segue como o único com depredação em massa e violência registrada nas fontes que encontrei; o de junho de 2017 foi o mais tenso do ponto de vista jurídico, com desobediência a ordem judicial e ameaça de intervenção policial.
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