Martha, por sinal, também pode aspirar ao prêmio de atriz como de coadjuvante, já que o longa dos Morelli não tem um claro protagonista, seja masculino ou feminino. A crônica de um grupo de amigos contempla a todos, embora o personagem de Caio Blat e seu segredo sejam pivotais na trama. O prêmio de melhor ator também poderia ir para Milhem Cortaz, pelo "Lobo", mas seria muito bem-vindo se o júri radicalizasse premiando Paulo André, ator mineiro do Grupo Galpão, por "O Homem das Multidões", de Cao Guimarães e Marcelo Gomes, ou o Jean-Claude Bernardet de "Periscópio", de Kiko Goifman. O crítico que virou ator tem aparecido com frequência frente às câmeras - e está em três filmes do festival -, mas nunca foi mais 'ator' do que na provocação de Goifman.
Mas a grande curiosidade é pelos Redentores de filme e direção. Quem leva? O festival viveu uma polarização, na Première Brasil, entre filmes de um perfil mais narrativo e outros de uma linguagem mais poética ou investigativa. "Lobo Atrás da Porta" e "De Menor", de Caru Alves de Souza, de um lado, e "O Homem das Multidões" e "Periscópio", de outro. E não se pode esquecer do melhor 'híbrido'. No debate sobre "A Gente", o diretor Aly Muritiba disse que gostaria de ver o 'gênero' reconhecido. Seu filme, embora selecionado como documentário, também tem muito de ficção, até pelo fato de que cenas importantes foram encenadas, embora não ensaiadas.
Uma livre adaptação de Edgar Alan Poe ("O Homem das Multidões"); um estudo de personagens, à Samuel Beckett, sobre dois homens numa casa e um periscópio que surge para catalisar os conflitos; a história do sequestro de uma criança que expõe o mau funcionamento de um casal, de toda uma sociedade ("Lobo Atrás da Porta"); a defensora pública que se envolve com um adolescente no Fórum de Santos ("De Menor"). E ainda houve "A Gente", sobre um agente carcerário (Jefferson Walkiu) que chega com novas ideias a um sistema essencialmente burocrático. Independentemente do que votar o júri, "A Gente" terá sido - é - o filme brasileiro mais político de uma seleção marcada pela política das ruas, e por manifestações que interferiram na própria dinâmica do evento.
Foi o festival dos fotógrafos, e o conceito e a execução das fotografias deram o tom da mise-en-scène nos melhores filmes. A tela quadrada de Ivo Lopes Araújo em "O Homem das Multidões"; a tela retangular de Gustavo Hadba em "Entre Nós"; a câmera na mão de Lula Carvalho em "Lobo Atrás da Porta"; e a câmera de Júlia Zakia, acuada entre as quatro paredes de "Periscópio". Histórias de solidão. A arte de grandes fotógrafos, mas só um deles poderá ganhar.
Repescagem
Houve nesta quarta o tapete vermelho de "Serra Pelada" no Cine Lagoon. O longa de Heitor Dhalia encerrou o Festival do Rio em alto estilo, mas o evento, após a premiação desta quinta, ainda prossegue com a repescagem. Durante uma semana, o público poderá (re)ver parte dos 370 longas da programação no Odeon e em dois espaços culturais da cidade - o Centro Cultural Banco do Brasil e o Instituto Moreira Salles. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

