A primeira decolagem está programada para ocorrer no Oriente Médio e a aeronave seguirá o trajeto na direção oeste para leste, sempre pelo Hemisfério Norte. "Escolhemos o Hemisfério Norte porque, diferentemente do Hemisfério Sul, há mais terra em relação à água, ou seja, é mais fácil contornar uma situação imprevisível", explicou Borschberg. Já a escolha do Oriente Médio ocorreu porque os pilotos pretendem voar antes do início das monções - chuvas torrenciais, especialmente de junho a agosto, que atingem o sul e o sudeste da Ásia.
O Solar Impulse vai sobrevoar essa região e aterrissar na China. "Lá, vamos estudar com detalhes as condições do tempo porque faremos a perna mais longa da viagem, provavelmente até o Havaí." Borschberg disse que serão cinco dias e cinco noites na travessia do Oceano Pacífico. No total, a viagem levará de dois a três meses. "Em termos de dias em voo, serão 20." No restante do tempo, a aeronave vai ficar em exposição, por cerca de dez dias, nos locais em que aterrissar.
Para realizar a viagem, Borschberg e Piccard vão voar em um avião que lembra um planador, embora em proporções bem diferentes. Da ponta de uma asa a outra, são 72 metros, praticamente a envergadura de Boeing 747. O peso, porém, é praticamente duas vezes o de um carro popular, ligeiramente acima de duas toneladas. O esqueleto do avião é composto por fibra de carbono. Leve e feito para planar, o aeronave precisa de apenas 120 metros de pista para decolar ou aterrissar. A velocidade média do equipamento é de 70 quilômetros por hora, alcançada por quatro motores de 15 cavalos de potência cada um.
Em cima das asas, 18 mil células solares captam a luz que, transformada em energia, é armazenada em uma bateria de 600 quilos, a fim de manter o avião em funcionamento durante a noite. Borschberg disse que a bateria dura cerca de dez horas após ser totalmente carregada. Ele explicou que, para conseguir atravessar a noite voando, precisava gerenciar o uso da energia. Segundo o piloto, para isso, é preciso ir a uma altitude de 9 mil metros e, a partir dali, desligar a energia e ficar planando, por cerca de quatro horas, até chegar a 3,5 mil metros, quando a energia volta a ser acionada. "São dez horas de bateria mais quatro apenas planando. É assim que se voa à noite."
Além dessa, há diversas outras curiosidades em relação ao Solar Impulse. A aeronave só tem espaço para uma pessoa, ou seja, os pilotos vão se revezar nos pontos de parada da viagem. E isso causa outra dúvida. Como ficar cinco dias cruzando o Oceano Pacífico? Borschberg explicou que, durante essa travessia, o piloto só poderá tirar cochilos de 20 minutos, momento em que o sistema opera nas características de um piloto automático. O suíço disse ainda que o assento funciona também como vaso sanitário. "Estou me preparando e fazendo exercícios de meditação. É mais preparação mental que física."
Questionado sobre qual seria a maior dificuldade, Borschberg afirmou que é entender o comportamento do avião. Segundo ele, quando o piloto realiza um comando, nada acontece de modo instantâneo. "Tem de ter paciência. Não há reação imediata. É preciso dar um comando, ver o que acontece e corrigir depois."
Borschberg está no Brasil para as comemorações dos 150 anos do grupo Solvay, patrocinador do Solar Impulse. O piloto disse que o grupo químico internacional, com sede em Bruxelas, na Bélgica, foi o primeiro a acreditar, há nove anos atrás, na ideia de uma aeronave movida a luz solar. O projeto tem 12 anos e desde então absorveu investimentos de US$ 150 milhões. "Isso não inclui pesquisa feita pelas empresas, apenas o pagamento de salários da equipe técnica e fornecedores", afirmou o piloto. "O valor é a metade do custo de produção de um grande filme americano de Hollywood."
Costa a costa
Uma versão menos sofisticada, embora similar, do Solar Impulse realizou, de maio a julho deste ano, uma viagem de costa a costa dos Estados Unidos, do Vale do Silício a Nova York. Durante as paradas, em Phoenix, Dallas, St. Louis, Cincinnati e Washington D.C., o avião recebeu 100 mil visitantes.
Indagado a contar um momento marcante, Borschberg disse que, durante essa viagem, uma parte embaixo da asa sofreu uma avaria. Um helicóptero tirou fotos do problema e enviou para técnicos em terra. "Os engenheiros disseram que estavam surpresos que a asa ainda não havia se desintegrado", disse, sorrindo, o piloto suíço. "Foi um momento engraçado".

