Após velório caótico na Casa Rosada, Maradona é enterrado

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

26/11/2020 20h35 — em Famosos & TV

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - O velório de Diego Armando Maradona na Casa Rosada, sede do governo argentino, foi palco de muitas homenagens e despedidas emocionadas para o ídolo, mas também de embates e caos ao longo desta quinta-feira (26).

A cerimônia em Buenos Aires inicialmente estava prevista para terminar às 16h. Houve o anúncio de que ela seria estendida até as 19h, mas acabou antes mesmo do horário original devido aos tumultos durante sua realização.

Com filas enormes, aglomerações e fãs sem perspectivas de se despedir do ex-jogador após horas à espera, houve confrontos com a polícia. A visitação foi interrompida pela invasão de cidadãos ao prédio oficial, e o caixão com o corpo de Maradona acabou retirado do local onde estava exposto.

Houve discussões sobre retomar a cerimônia, como gostaria o governo, ou encerrá-la de vez, seguindo a vontade da família. A segunda opção prevaleceu.

O ex-jogador foi enterrado no final da tarde, no cemitério Jardim da Paz, na região de Bella Vista, a 35 km da capital, em uma celebração pequena, apenas para familiares e pessoas próximas.

Maradona morreu aos 60 anos na quarta (25), em casa, quando se recuperava de uma cirurgia na cabeça. Resultado final da autópsia, divulgado nesta quinta, apontou insuficiência cardíaca crônica.

Em meio à pandemia de Covid-19, mais de 1 milhão de pessoas eram esperadas para o evento público. Milhares já aguardavam para entrar na Casa Rosada às 6h desta quinta, quando as portas do edifício histórico se abriram para receber os fãs.

As tentativas de manter o distanciamento social por conta da pandemia e a organização da entrada dos admiradores fracassaram logo de cara. Havia grades de metal para tentar conter o volume de gente, mas elas eram constantemente derrubadas em disputas por espaço.

Muitos desses torcedores haviam passado a noite entre o Obelisco e a Praça de Maio, onde foram realizadas as homenagens na quarta, e vários estavam embriagados.

Com esforço, seguranças conseguiam convencer que alguns pelo menos colocassem a camiseta e a máscara antes de entrar no recinto.

À tarde, a situação piorou. Apesar da fila de mais de dez quarteirões para ver Maradona, os organizadores interromperam a entrada de mais gente a partir das 15h.

Para chegar até o local do velório, os torcedores tinham de ficar três horas sob o sol, entre duas linhas de placas de metal. Concluiu-se que não haveria tempo para que o corpo deixasse o prédio entre 16h30 e 17h, que era o combinado entre a Presidência e a família do ex-jogador.

Começou, então, a haver correria e revolta entre os presentes quando informados de que muitos deles não chegariam perto do ídolo.

A polícia interveio com gás lacrimogêneo e tiros de bala de borracha. "Diego é do povo! Deixem-nos entrar", gritavam os presentes. Muitos não usavam máscaras de proteção, ou as usavam caídas no queixo. Não existia distanciamento nem controle por parte das autoridades para as medidas sanitárias básicas. Desde o início da pandemia, a Argentina havia adotado regras consideradas duras no enfrentamento da doença.

Após alguns manifestantes conseguirem pular para dentro da Casa Rosada, o governo anunciou que o velório se estenderia até as 19h, numa tentativa de acalmá-los.

Quando isso foi divulgado, porém, a fila já havia se desfeito. Muitas pessoas estavam espalhadas pela praça. Algumas conseguiram entrar pela parte de trás do edifício.

Funcionários do governo, atrapalhados, tentavam reorganizar uma fila do zero, em meio a cidadãos que cooperavam e outros que não queriam obedecer e tentavam forçar a entrada, sem respeitar a ordem de chegada.

Às 15h30, um novo grupo de torcedores, mais numeroso, entrou à força no pátio interno da Casa Rosada. Foi a gota d'água. Os organizadores do evento decidiram, por segurança, remover o caixão com o corpo de Maradona do local, o que causou mais gritaria.

Sem possibilidade de retornar com a visitação, a cerimônia terminou deixando muitos frustrados. Por volta das 18h, o corpo saiu em cortejo de carro –aos gritos de "olé, olé, olé, olé, Diego, Diego" (veja vídeo abaixo)– até o cemitério Jardim da Paz.

Lá estão enterrados seus pais, Tota e Diego, que morreram em 2011 e 2015, respectivamente. Trata-se de um cemitério-parque. Não há famosos sepultados no local, diferentemente dos emblemáticos da Recoleta e Chacarita, mas ir para lá era a vontade manifestada por Diego, segundo familiares.

Pouco antes de abrir as portas do velório para a multidão, a família do ídolo se despediu dele numa cerimônia privada, à qual os jornalistas não tiveram acesso.

Estavam presentes sua ex-mulher Claudia Villafañe, suas filhas mais velhas, Dalma e Giannina, e também sua companheira mais recente, Veronica Ojeda, com o filho mais novo, Dieguito Fernando, além de outra filha do ex-jogador, Jana Maradona.

Apenas um dos filhos reconhecidos, Diego Júnior, não compareceu, por estar na Itália, em tratamento médico por conta do coronavírus.

Também apareceram ex-jogadores que foram companheiros de Maradona —Oscar Ruggeri, Sergio Batista e Jorge Burruchaga— e alguns ídolos argentinos mais recentes, como Carlos Tévez, Martín Palermo e Javier Mascherano.

O presidente argentino Alberto Fernández chegou à Casa Rosada de helicóptero no fim da manhã. Com os olhos marejados, caminhou até as grades que o separavam dos torcedores e tirou selfies. Já dentro da sede do governo, aproximou-se do caixão e deixou sobre ele uma camiseta 10 do Argentinos Juniors, time do qual é torcedor e que foi palco do início de carreira de Maradona.

Fernández também pôs ali um lenço das Mães da Praça de Maio, organização de direitos humanos que busca os desaparecidos da ditadura militar (1976-1983) e com a qual Maradona tinha forte vínculo. Houve um minuto de silêncio e cumprimentos do presidente à Claudia Villafañe, Dalma e Giannina.

A bandeira argentina localizada no meio da Praça de Maio está a meio pau. Fernández decretou na quarta-feira luto oficial de três dias.

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