Ser treinador no Brasil o preparou para essa reconstrução saindo do zero?
Sim, a gente enfrenta tanta dificuldade em termos estruturais... Hoje, temos clubes no Brasil que são potências, mas que não têm centro de treinamento. A gente vai se acostumando a lidar com esse tipo de coisa. A diferença é que todos os jogadores que vieram para Chapecó tinham o mesmo espírito. Às vezes, você chega a um clube em que alguns são favoráveis, outros estão desde a gestão anterior, existem interesses e objetivos diversos. Nesse sentido, quem chegou aqui veio olhando para o mesmo lado.
Alguns times de pouco investimento, como o Santa Cruz em 2016, tiveram a experiência de liderar e terminaram rebaixados. Outros, como o inglês Leicester, foram campeões. Entre o pé atrás e o otimismo, onde você fica?
Eu escolho ser realista. Se você fizer uma consulta com todos os entendidos antes do Brasileiro, a maioria vai apontar os doze grandes com chance de título e os outros oito como possíveis rebaixados. Ao longo do processo, vamos vendo que não é bem assim. As estruturas são diferentes e, por isso, dentro de campo acontecem coisas diferentes. Eu tenho certeza de que a Chape vai fazer uma grande Brasileiro. Um time que se classifica dentro da Libertadores é arrumado e competitivo, e o Brasileiro com oito meses pede isso. Garanto que a gente vai ficar na primeira divisão, que é nosso objetivo, mas podemos ficar na parte de cima.
É errada a forma como se apontam candidatos ao título?
Eu acho. É mais cômodo escrever no jornal ou falar na rádio e TV o que o torcedor dos grandes clubes quer ouvir. Quando se começa o campeonato, não se consegue acompanhar todos os estaduais. É nessas dez primeiras rodadas que você começa a conhecer as equipes. Antes, para não se arriscar e por desconhecer os times, o cara vai em quem tem segurança. Ele não quer falar o que amanhã alguém conteste. A gente já viu que tem times bem armados e outros que vão se arrumar ao longo do processo. O que a Chape quer é somar o maior número de ponto agora para não sofrer depois, quando fica mais difícil, com os grandes reforçados.
A Chapecoense teve um imbróglio jurídico na Libertadores, briga na partida com o Cruzeiro, torcedor jogando objeto em campo. É a volta à normalidade de um clube?
Todo mundo se comoveu muito. Foi uma coisa necessária porque todo mundo queria prestar solidariedade, o que é bacana, mas sabíamos que seria por tempo limitado, íamos encontrar os rivais no estadual. Depois, foi incomodando alguns dentro de campo, porque o time foi se ajustando. É natural. É como se desse apoio a uma pessoa mas, quando ela fica bem, pisa no seu pé. Você acha ruim, é do ser humano. Acho até bom. Ninguém quer ficar de coitadinho. A gente ia viajar e era aplaudido nos aeroportos. Ainda somos, mas, quando começa o jogo, há uma partida de futebol, é perfeitamente normal.
O acidente ainda é utilizado para motivar o vestiário?
A gente até falou em um determinado dia, mas tem que dar espaço para que todos possam escrever uma nova história. A gente tem que comemorar a vida, o fato de outras pessoas estarem aqui, e que elas consigam homenagear no trabalho diariamente. Não é falando sobre o acidente, mas vivendo.
Boa parte de sua carreira foi em times de capitais: Rio, Salvador, Curitiba, Recife, BH. Chapecó é diferente?
Dá a impressão que você repensa sua vida, tem tempo de fazer mais coisas. Quando saio do hotel onde moro e até o CT demoro de dez a 12 minutos. Isso é difícil em capitais. Aqui, tem vida mais saudável. Você encontra pessoas na rua. Todo mundo fala com todo mundo, a cidade vive intensamente o time. Nas cidades grandes, você tem pressão maior, tem um dia a dia mais acelerado. Aqui, a cidade te acolhe muito. Todos têm acesso a você. Não que não tenha pressão por vitórias, mas aqui tem vida.
Do ponto de vista pessoal, ter esse tempo te fez bem?
Todo mundo que passa aqui nota que é uma cidade diferente por te mostrar que existe uma outro tipo de vida, que não é a vida atribulada das capitais. Eu sou do interior de São Paulo, mas são mais ou menos os mesmo valores. Chega à noite, bota a cadeira para sentar na calçada. Você é parte de uma comunidade que vive de forma diferente. Não tem como isso não te fazer bem. É bom para voltar às raízes. Na cidade grande, a gente leva uma vida artificial, de poucos lugares e muito tempo perdido. Aqui é exatamente o contrário. Eu tomo um café na padaria e encontro com várias pessoas que todo dia estão ali. Com calma, sem medo de ser assaltado. A parte boa é que, ao longo do Brasileiro, a gente também vive nas cidades maiores.
Mas a logística de viagens é mais complicada em Chapecó. Com a memória do acidente, imagino que perturbe.
Não ouço nenhum tipo de comentário ao entrar em avião. Chapecó tem uma logística difícil, porque teria que ter mais investimento no aeroporto para ter mais voos e decolagens com instrumentos. A gente fica refém do tempo. Aqui há frio e muita neblina. Já tivemos que ir para Porto Alegre, a mais de 500km. Isso desgasta. Esse problema, temos tentado solucionar viajando dois dias antes. Às vezes, não voltando no dia seguinte e fazendo mais uma dia de treino na cidade. Os times vêm aqui só uma vez, mas a gente sai 19 vezes.

