"Um time é bom quando passam 20, 30, 40 anos e ainda falam dele". A frase de Pep Guardiola sobre a seleção de 1982, dita em maio, é um dos sinais de que o reconhecimento não vem apenas com os títulos no futebol. Trinta e cinco anos após a Copa da Espanha, a equipe ainda é considerada uma das melhores de todos os tempos — a tal ponto que Tite afirma ter o time de Telê Santana como modelo para a seleção. E eles não são os únicos. O magnetismo da equipe que encontrou diante da Itália seu capítulo final não cansa de ser recontado e, neste ano, dois estrangeiros publicam biografias de dois grandes astros.

Fã e admirador do futebol brasileiro, o jornalista português Luís Miguel Pereira é responsável por "Uma vez Zico, sempre Zico", e lembra que acompanhou a Copa de 82 pela TV sem perder um único jogo do Brasil. Segundo ele, a seleção deixou uma marca eterna, mesmo derrotada. O drama aliás, na avaliação do jornalista, trouxe uma "injustiça poética" com a seleção que era a melhor do mundo, mas que não venceu dentro de campo.
— A prova desse impacto histórico é que, 35 anos depois, ainda estamos aqui falando sobre ela — diz, ecoando Guardiola. — É a maior evidência de que essa equipe será eterna. Quem gosta de futebol não pode deixar de incluí-la como uma das três melhores da história — afirma Pereira.
O jornalista define seu livro como um grande almanaque. Ao contrário das biografias já escritas, a obra não tem ordem cronológica e se desenrola a partir de recortes da vida do craque. Contou também com a colaboração de Zico, com fotos de arquivo pessoal legendadas pelo próprio Galinho. Durante as pesquisas para o livro, Pereira se espantou com uma espécie de “GPS” do artilheiro do Maracanã, com 334 gols.
— Zico tinha a precisão exata de onde estava no gramado. Ele olhava os placares de publicidade e ouvia as vozes dos radialistas atrás do gol, que naquela época eram sempre os mesmos, e se orientava por meio disso. Ele chegava a um nível de entendimento do jogo incrível e conseguia surpreender os seus adversários. Isso é algo fenomenal. Alguém que conhece tão bem o palco onde pisa... é genial.
Vem da Escócia o autor da recém-lançada biografia “Doctor Sócrates: footballer, philosopher, legend” (Doutor Sócrates: jogador, filósofo e lenda) ainda sem tradução em português. Andrew Downie recorda que o esquadrão de 82 bateu as melhores seleções antes da Copa e chegou à Espanha carregado de expectativas.
— Houve uma grande identificação popular e um vínculo de carinho. Já em 86, por exemplo, não se sabia quem seriam os 11 da Copa três meses antes da competição.
Residente no Brasil desde 1999, o jornalista da Reuters diz que grande parte dos jogadores dessa seleção estaria presente em qualquer escalação que reunisse os melhores do mundo no início da década de 80. Sócrates ficou na memória do escocês.
— Ele transcendia o futebol. Se politizou e se transformou num ícone da democracia.




