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‘Surpreende ainda encontrar esse tipo de prova’, diz MPF sobre emails de Nuzman

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RIO — Em entrevista coletiva concedida na tarde desta quinta-feira, procuradores do Ministério Público Federal (MPF) que integram a força-tarefa da “Operação Unfair Play” revelaram certa surpresa com as provas encontradas após o cumprimento de mandados de busca e apreensão no último mês, e que resultaram na prisão temporária de Carlos Arthur Nuzman. Ao colherem documentos em endereços ligados ao presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB) no início de setembro, os procuradores obtiveram emails nos quais o dirigente senegalês Papa Massata Diack cobra de Nuzman o complemento de um pagamento relacionado à candidatura do Rio para o posto de sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

Os investigadores suspeitam que Papa Massata recebeu propina em nome de seu pai, Lamine Diack, ex-presidente da Federação Internacional de Atletismo (IAAF) e membro do colégio eleitoral que elegeu a sede da Olimpíada de 2016. Nuzman teve prisão temporária cumprida nesta quinta-feira, assim como seu braço direito no comitê de candidatura do Rio, Leonardo Gryner.

— Depois de tantas prisões e operações da Lava-Jato no Rio, surpreende ainda encontrar esse tipo de prova. É um ranço do passado. Pessoas que nunca pensarem que pudessem ser alcançadas estão sendo (alcançadas) — disse a procuradora Fabiana Schneider.

A troca de emails com Diack é a principal evidência que levou os procuradores do MPF a apontarem envolvimento de Nuzman na suposta compra de votos de membros do Comitê Olímpico Internacional (COI). Como os emails em questão são datados de novembro e dezembro de 2009, em data posterior aos depósitos feitos pelo empresário Arthur Soares nas contas de Papa Massata — e posterior também à votação que elegeu o Rio como sede da Olimpíada —, o MPF acredita que o volume da propina foi maior do que os US$ 2 milhões já identificados nesta transferência.

Os procuradores seguem investigando envios de dinheiro a participantes da eleição da cidade-sede dos Jogos, e afirmaram já ter indícios de que pelo menos mais US$ 500 mil foram pagos a membros do COI.

Preso na manhã desta quinta-feira, Nuzman foi levado à sede da Polícia Federal no Rio, onde fará exame de corpo de delito. A prisão temporária tem duração de cinco dias, renovável por mais. O MPF realizou novos mandados de busca e apreensão nesta quinta. Dependendo das provas obtidas, pode requerer à Justiça a conversão de prisão temporária em prisão preventiva, que tem prazo indeterminado.

Os procuradores também apontaram evidências que ligam o Comitê Rio-2016, organizados dos Jogos Olímpicos, a outros empresários denunciados por participação no esquema de corrupção do ex-governador Sérgio Cabral. Entre os nomes citados pelo MPF estão Marco Antônio de Luca, da Masan Serviços Especializados, e Jacob Barata Filho, da Fetranspor, que prestaram serviços à Olimpíada.

Devido ao envolvimento desses empresários, o mais provável é que Nuzman seja denunciado por integrar a quadrilha liderada por Cabral neste caso da suposta compra de votos para a candidatura do Rio, ainda que não prove participação direta do presidente do COB no desvio de dinheiro dos cofres estaduais.

— Não sei se Nuzman pegou em dinheiro, as investigações continuam. Mas isso não é determinante para definir sua participação no esquema. Está provado pelos emails que ele participou da compra de votos para a eleição do Rio como cidade-sede dos Jogos — afirmou Schneider.

A procuradora do MPF afirmou ainda que a retificação feita por Nuzman em sua declaração de Imposto de Renda, reconhecendo ser dono de 16kg em barras de ouro depositadas na Suíça, não melhora a situação do presidente do COB. A retificação foi feita após ser deflagrada a Operação Unfair Play, em setembro. De acordo com Schneider, apesar de ter admitido os valores, Nuzman segue sem dar explicações que justificassem sua posse.

— Enquanto os atletas corriam e lutavam em busca de medalhas de ouro, nossos dirigentes olímpicos ocultavam patrimônio em barras de ouro em contas na Suíça — criticou a procuradora.

O advogado Nélio Machado, que representa Carlos Arthur Nuzman, criticou a prisão temporária de seu cliente.

— Desnecessária, abusiva e ilegal. Nós já havíamos entrado com habeas corpus junto ao Tribunal Regional Federal desde o mês passado, quando ocorreu a primeira operação, e esperamos que seja apreciado logo.

Neste habeas corpus, a defesa de Nuzman alega que as acusações do Ministério Público Federal consistiam no fato de o dirigente ter apresentado supostos corruptos e corruptores no caso da compra de votos de uma entidade privada, e que isto não configura crime no Brasil, apenas na França, onde se iniciou a investigação.

Por isso, a defesa pediu no habeas corpus a devolução do passaporte de Nuzman e a anulação das investigações entre ele, o que ainda não foi julgado pela Justiça.

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