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Sucesso na base, Jardine busca bi da seleção olímpica para eclipsar fracasso no profissional

SANTOS, SP (FOLHAPRESS) - Era cena comum no extinto restaurante no complexo do Beira-Rio, estádio do Internacional, ver o técnico André Jardine, 41, passando de mesa em mesa com uma nota de R$ 50 na mão para desafiar, quem quer que fosse, a batê-lo em um jogo de lógica. Jardine improvisava palitos de dente para simular uma partida semelhante a de resta um, que tem por objetivo a movimentação de peças até a permanência de uma só.

O treinador tinha fixação por jogos de lógica.

"Ele ficava horas na internet com isso e passou a dominar alguns jogos, a ponto de querer desafiar todo mundo. Sempre entendeu que futebol se faz mentalmente", conta Diego Cabrera, atual coordenador da base do Vasco e que trabalhou com o treinador no Grêmio, no Internacional e no São Paulo.

De fala pausada e aparentando ser um poço de tranquilidade, Jardine busca o segundo ouro olímpico da seleção às 8h30, neste sábado (7), em Yokohama, contra a Espanha (TV Globo, SporTV e Bandsports).

De carreira curta como jogador, atuou apenas na base do Grêmio. "Sofria bastante com a parte física, que sempre cobrou uma conta muito alta. O jogo não era prazeroso, era um desafio suportar o campo", disse.

Jardine conta ter se encontrado como treinador. Respeitado pelo currículo, com mais de 30 títulos em categorias de base, ficou sete anos no Inter, entre 2003 e 2010, depois foi para o Grêmio, até chegar em 2015 ao São Paulo, clube pelo qual viveu o ponto mais alto e o mais baixo da carreira até aqui.

Por um lado, conquistou no Morumbi o bicampeonato da Copa do Brasil Sub-20 de forma invicta. De outro, na única tentativa como treinador profissional, em 2019, fracassou com o São Paulo ao ser eliminado na pré-Libertadores. A passagem terminou depois de apenas 18 partidas: 7 vitórias, 2 empates e 9 derrotas.

O técnico é apontado por quem conviveu de perto como um "workaholic". Nos primeiros meses no clube paulista, passou horas sentado no vestiário do Morumbi após uma derrota por goleada para o Internacional. Queria entender, com membros da comissão técnica e diretores, quais eram os pontos que ocasionaram o revés. "A melhor qualidade dele é a potencialização do individual dos atletas. Ele é workaholic mesmo, perfeccionista ao extremo", conta Júnior Chávare, atual gerente de futebol do Bahia.

Chávare lembra aos risos que era comum ser acordado durante a madrugada com uma ligação do técnico enquanto trabalhavam juntos nas categorias de base do Grêmio e no São Paulo. Jardine ficava de madrugada observando jogos e analisando jogadores. "Mais de uma vez tocava o telefone e era ele falando que pensou alguma coisa ou viu algum jogador. Não tinha hora, ele só pensava nisso", conta.

Jardine é tido como responsável por moldar uma geração valiosa para o São Paulo. Por suas mãos passaram Eder Militão, Antony, Luiz Araújo e David Neres. No Grêmio, foi o escolhido para preparar a geração de Everton Cebolinha, Arthur e Walace. "Nós o indicamos, já tinha muita fama e experiência no Sul, mas fizemos um pedido especial para que chegasse ao Grêmio para o sub-17 e depois fosse ao sub-20. Foi muito importante para ajudar a recuperar uma geração que estava sem confiança", relata Chávare.

Na seleção, o técnico evitou erros do passado. Convocou para os Jogos três atletas mais experientes para diminuir as chances de fracassar: o lateral direito Daniel Alves, o goleiro Santos e o zagueiro Diego Carlos.

"Os três acima da idade deram experiência à equipe, um toque de maturidade que nos faltava. A gente sofreu bastante no pré-olímpico, especialmente na defesa, onde carece mais de experiência", afirmou.

O técnico, curiosamente, enfrentará uma escola na qual se inspira: a espanhola. Fã declarado de Pep Guardiola e do Barcelona, diz que o modelo imposto pelo treinador na década passada o fez repensar o futebol. "Foram times que me fizeram refletir sobre o jogo, pensar que podíamos ir além."

Com um time ainda sem grandes atuações durante as Olimpíadas, Jardine terá na decisão a chance de provar que é capaz de superar o maior desafio na carreira. O bicampeonato olímpico consecutivo colocaria o Brasil ao lado de Grã-Bretanha (1908 e 1912), Uruguai (1924 e 1928), Hungria (1964 e 1968) e Argentina (2004 e 2008), as únicas seleções de futebol a realizarem o feito.

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