O resfriado delata a pouca intimidade com o frio. Renato Gaúcho espirra, funga, mas encontra fôlego para falar sobre a saúde do Grêmio, segundo colocado na classificação do Brasileiro. O duelo com o líder Corinthians, hoje, às 16h, em casa, vale a ponta da tabela. E é como um cala-boca para quem duvidou do técnico fanfarrão, agora mais comedido, capaz até de arrependimentos. Porque os erros, assim como a única derrota do Grêmio na competição, atrapalham uma vida. Já o resfriado é passageiro.
Você disse recentemente que não levava a sério a carreira. Quando isso mudou?
Eu quis dizer que, no início, não sabia se daria certo, pois há uma diferença entre ser jogador e técnico. Mas, já no estágio no Madureira, percebi que levava jeito. Se tivesse começado em um clube grande, talvez me desiludisse e ficasse pelo caminho.
Você não trabalhou em tantos clubes...
Recebi várias propostas para sair. Já tive propostas do Japão, da Arábia... Nunca fui e nunca irei. Já tive experiência como jogador. E olha que eu morava em Roma. Mas, para mim, não dá. Sinto saudade e não posso viver fora, com a cabeça aqui. Mas os trabalhos que realizei onde passei foram excepcionais.
Sente-se respeitado como treinador de primeira linha?
Sim. Afirmo que sou, pelo respeito dos dirigentes com os quais trabalhei, pelos bons contratos que fiz e pelo que falam de mim no Brasil.
Arrepende-se de algo?
Eu me arrependo de ter ficado muito tempo parado. Deveria ter parado por cinco ou seis meses. Parei por mais de dois anos.
O que perdeu nesse tempo?
Dinheiro. Mas, se fiquei um tempo sem ganhar, também aproveitei para ver jogos.
Assiste a muitos jogos?
Acredito que sou o treinador que mais assiste a jogos. Moro em hotel, não tenho o que fazer. Vejo a primeira divisão, a segunda, os jogos lá de fora. E levo comigo o que tenho na cabeça. Sei até onde vai o meu QI.
Até onde vai?
Vai longe. Quando eu falo sobre não estudar... O que seria estudar no futebol? Não vale ir para a Europa, tirar três fotos. Assisto a quase todos os jogos e não vejo tanta diferença em relação aos daqui. Tem o Real e o Barcelona, mas aí não conta. Com o produto que eles têm, fica fácil.
Assiste a mais jogos no Sul do que quando está no Rio?
Em um dia com sete jogos, se vejo dois ou três no Rio, aqui posso ver cinco. Fico com a tv ligada na minha frente o tempo todo. O ruim é que estou deixando de viver. Aqui, nunca saí. Faço tudo no hotel. O assédio é grande. Até os colorados que me xingam querem tirar foto. Falei que, quando voltasse a trabalhar, pegaria firme. Estou pegando firme.
Houve alguma frase do passado que não falaria hoje?
Eu me arrependo de ter dito, no Fluminense, que ia brincar no Brasileiro. No Brasil, a gente tem que ficar com um pé atrás. Há os inteligentes e os maldosos.
E de ter oferecido churrasco ao Gaúcho, depois de uma derrota para o Flamengo, em 1992, quando era jogador do Botafogo, arrepende-se?
Eu me arrependo um pouco, porque não imaginava que estava fechando a porta de um clube para o resto da vida. Mas, sendo assim, o Botafogo também perde um grande treinador.
Vai ser, como técnico, tão bom quanto foi jogando?
Fui um puta jogador. E estou me tornando um grande treinador. Vai ser páreo duro, mas ainda tenho que ganhar mais títulos. Uma coisa é pegar um grande clube. Na maioria das vezes, trabalhei apagando incêndio.
É verdade que, em 2008, ignorou os relatórios do auxiliar Vinícius Eutrópio?
Na verdade, ele e o Fábio Mahseredjian faziam parte da comissão permanente do Fluminense. Eles me disseram que cinco ou seis jogadores nossos não aguentariam a altitude (de Quito, contra a LDU, pela Libertadores), não me lembro qual era a partida. Falei: “Eles vão jogar”. Eles jogaram e foram os melhores em campo.
Ficava aborrecido quando diziam que você herdou um time arrumado pelo Roger?
Aquilo era coisa de duas ou três viúvas do Roger. Minha primeira pergunta à imprensa, quando cheguei aqui, foi: “Por que, afinal, o Roger foi embora?”
Qual é a diferença entre o time dele e o seu?
Gosto que meu time valorize a posse de bola, mas, se precisar escolher, prefiro ter 30% de posse e vencer. Quando cheguei, o time fazia gols, mas tomava também muitos gols, principalmente de bola parada. Trabalhei a parte ofensiva e defensiva. O time não agredia o adversário.
Acha que o Grêmio vai ser campeão brasileiro?
O Grêmio teria muita chance se estivesse disputando somente o Brasileiro. Mas estamos na Libertadores e na Copa do Brasil, e essas são as prioridades do momento. O que significa que o time não estará sempre completo. Vamos pegar o Corinthians pelo Brasileiro e, na quarta-feira, o Atlético-PR, pela Copa do Brasil. Então, provavelmente no sábado (1º de julho), contra o Palmeiras, não entraremos com o time principal. Pois três dias depois jogamos pela Libertadores (contra o Godoy Cruz). Acho que vamos começar a perder gordura.
Qual é o segredo desse Grêmio, que só perdeu uma partida no Brasileiro?
Peraí. Perdemos para o Sport, porque entramos com os reservas, muitos da base. A verdade é que fiz pré-temporada, converso com o grupo, mostro vídeos. E insisti para que trouxessem jogadores de custo baixo, como o Léo Moura e o Cortez. Sou um dos treinadores mais modernos. Meu time faz gol de tudo que é jeito, joga como time grande em qualquer lugar, faz gols fora de casa. Esse é o futebol moderno que implantei. Aliás, moderno, não. Muito moderno! Por ter sido atacante, quero gols, quero meu time para a frente. O Grêmio está atropelando todo mundo e está entre os times que menos fazem falta. Sabe por quê? Porque quero que meu time jogue futebol.
Você está grisalho...
Não pinto o cabelo. E, quer saber? Meu sonho sempre foi ficar grisalho. Sabe qual é minha diferença para o Richard Gere? O saldo bancário.
Você é rico ou precisa trabalhar para viver?
Se eu fosse um cara sozinho, seria rico. Mas um milhão de pessoas dependem de mim. Minha filha, Carol... Eu trabalho mais por ela. Se eu deixar, ela me quebra. Sou uma máquina de ganhar dinheiro, ela é uma máquina de gastar.
Sente falta do bronzeado de Ipanema?
Como posso ficar bronzeado neste frio? Sou gaúcho, mas saí do Sul aos 24 anos.
Gosta de chimarrão?
Nunca tomei. Eu tomo é chope, porra.

