Recuperação de áreas degradadas, avaliação de impactos ambientais e saneamento são matérias na grade curricular de Kahena Kunze, de 26 anos. É um dos casos em que a prática ensina tanto quanto (ou mais do que) a faculdade. Após trancar o curso de Engenharia Ambiental em 2013, quando precisou dedicar-se aos treinos com Martine Grael, a velejadora paulista acumulou tempo e experiência para refletir sobre essas questões. Com a medalha de ouro na Olimpíada do Rio na classe 49er FX, Kahena mostrou que se adaptou à Baía de Guanabara como poucas.
O que poderia ser motivo de orgulho causa, na verdade, certo embaraço. Não pela vitória, é claro, mas sim pelas condições da Baía. Kahena é direta: para ela, os Jogos Olímpicos não deixaram legado para a despoluição do local — embora esta fosse uma promessa do governo do estado à época da candidatura. A impressão, pelo contrário, é de que a quantidade de lixo aumentou, enquanto a qualidade da água despencou.
— Acho que piorou. Sempre teve lixo flutuante, mas vejo cada vez mais. Não se iniciou uma conscientização ambiental. Não adianta esconder o lixo porque depois volta. Imaginei que fosse piorar porque nunca vi algo concreto sendo feito — reclama Kahena.
A velejadora lamenta não só a maquiagem feita à época dos Jogos, mas também o que entende como tentativa de abafar críticas.
— Nós, atletas, somos os que mais podemos falar, porque somos quem mais vive aqui dentro da Baía. A gente se deparava com televisão, sofá, mas tentou-se esconder isso da mídia para não sujar a imagem dos Jogos. Como atleta, eu queria muito ter falado na época. A gente até não poderia ter falado tanto, mas é revoltante.
O plano de legado dos Jogos do Rio tinha como um de seus carros-chefe o Programa de Saneamento Ambiental dos municípios no entorno da Baía de Guanabara (PSAM), no valor de U$ 650 milhões — 70% do orçamento seria custeado por um empréstimo junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), enquanto o restante caberia ao governo do estado.
O programa inclui a construção de um tronco coletor na Cidade Nova e de uma estação de tratamento em São Gonçalo — obras que não chegaram a 50% de conclusão —, mas encontra-se paralisado devido a um impasse entre instâncias de governo.
O estado do Rio pediu um aditivo de prazo para dar continuidade ao PSAM. O governo federal não autorizou, por entender que representaria um aumento do endividamento do estado, que discute um plano de recuperação fiscal. Segundo a Secretaria estadual do Ambiente (SEA), contudo, o aditivo não implica em “aumento do endividamento, apenas do prazo para conclusão”.
Até agora, já foram gastos R$ 200 milhões nas obras do programa. Em nota, a SEA afirmou que também mantém 17 ecobarreiras em rios que desaguam na Baía, e diz que o sistema já conteve nove mil toneladas de lixo.
A vida esportiva e acadêmica de Kahena se cruzam no desejo que ela manifesta de ajudar na limpeza da Baía de Guanabara — considera necessário um projeto de "40, 50 anos", com mudanças de mentalidade do poder público e de hábitos da população. Kahena destrancou a faculdade no início deste ano, e desde então vem conciliando as aulas com treinos e viagens para competições. Ela e Martine Grael venceram todas as três etapas da Copa do Mundo de vela no primeiro semestre, e agora se preparam para o Mundial em agosto, em Portugal.
O ciclo para Tóquio-2020 já trouxe algumas mudanças para Kahena e Martine. O treinador espanhol Javier Torres, que esteve perto da dupla durante toda a preparação para a Rio-2016, agora encontrará as atletas somente durante competições na Europa.
A própria continuidade da parceria com Martine não é 100% garantida. Kahena, sempre serena, pondera que "nunca se sabe o dia de amanhã". O desejo que transparece, no entanto, é o de manter a parceria que trouxe o primeiro ouro feminino para o Brasil no iatismo.
— Não me vejo continuando a campanha (para Tóquio-2020) sem a Martine. Temos uma química muito boa, às vezes nem precisamos falar nada para saber o que fazer no barco. Ela me inspira muito no dia a dia porque é uma pessoa humilde e batalhadora. Acho que é preciso admirar a pessoa, senão não adianta.
Kahena admite que o ritmo anda menos acelerado do que no ciclo olímpico da Rio-2016. O ritmo de treinos "desacelerou total" segundo a velejadora, que tem reservado mais tempo para projetos pessoais -- mesma postura adotada por Martine, que viajou para estudar na Europa. O status de campeã olímpica fez a dupla ser mais visada pelas adversárias. Kahena, no entanto, não está disposta a pagar qualquer preço para se manter no topo.
— Conheço a Martine desde os 10 anos e sempre fomos muito amigas. Percebi no ciclo passado que a nossa amizade se desgastou um pouco. Passou a ser mais uma relação entre profissionais. Agora, pelo fato de estarmos mais distantes, começamos a sentir saudade, até surge mais assunto — diz Kahena, que valoriza a "paz interior" trazida pela vela:
— No mar, consigo esquecer todos os meus problemas. Consigo ser muito mais sensível aos efeitos da natureza. É um esporte que me relaxa quando estou estressada. Também consigo sentir essa paixão de velejar durante as competições, embora tenha que estar mais focada.

