A cena era comum. Marcelo Vieira da Silva Júnior respondia à chamada, depois pedia para ir ao banheiro e não voltava mais. A rota de fuga sempre culminava na quadra. Bom exemplo como aluno, ele nunca foi, e reconhece isso. Mas desde criança, quando estudava na Escola Municipal Arthur da Costa e Silva, em Botafogo, o menino cativava pela simpatia e já mostrava traços da personalidade que teria, para o bem, em campo.
— Era bem levado, irrequieto. Era de brincar com os amigos, mexer com os outros alunos, mas era muito bem quisto por todos. Ele não parava. Isso mostra bem a característica dele, de correr bastante, desde aquela época. Ele matava muita aula — relata a professora Odete Salgado, que há 40 anos ensina português, redação e francês.
Registro em grafite
Esse mesmo aluno virou jogador profissional, conquistou a quarta Liga dos Campeões pelo Real Madrid e se apresenta hoje à seleção brasileira, na preparação para a Copa da Rússia. Olhando para o tipo de lateral no qual ele se transformou, dá para dizer que Marcelo ficava na sala de aula tanto quanto guarda posição na linha defensiva.
— Quando dava para escapulir, ele escapulia — diz Odete.
Marcelo morava em um prédio na Praia de Botafogo, onde até hoje costuma aparecer nas férias. O local é reduto de uma torcida do Botafogo. Além da escola, ele usou uma quadra, a um quarteirão de casa, para dar os primeiros passos no futebol. No muro em frente, há uma pintura dele.
A escola Arthur da Costa e Silva também não é longe, mas, devido ao comportamento “fantasma” em sala, a tarefa de recordar momentos com Marcelo é mais difícil para outra professora: Maria Lúcia Rotti, também de língua portuguesa. Para ela, é mais fácil contar como era a relação com outro aluno, para quem deu aula décadas antes, em outra escola; um que, após uma cirurgia de mudança de sexo, passaria a se chamar Roberta Close.
— A Roberta ficava comigo no recreio, colocando minhas pulseiras, meus colares. Se o Marcelo ficava mais tempo jogando futebol do que lá em cima, como é que eu vou ter momento marcante com ele? Não tenho — confessa a sincera Maria Lúcia.
Da parte que ficou na mente, há aspectos positivos:
— Ele era simpático. Não era brilhante na sala de aula. Graças a Deus venceu no futebol.
Se academicamente a escola não serviu muito para o desinteressado Marcelo, o conselho de um professor ajudou a dar o incentivo para o avô daquele menino bagunceiro considerar o futebol como algo mais do que só um motivo para matar aula.
— Marcelo já chamava a atenção na aula de educação física. Um professor da época, o Tulio Marcos Sclebin, aconselhou o avô a levá-lo para treinar em um time. Aí, ele foi para o Fluminense e fez testes — conta Odete.
O lamento dela é que esse mesmo professor, que ainda estava na ativa, morreu na semana passada, certamente orgulhoso do jogador que o aluno Marcelo se tornou.

