O texto a seguir foi gravado, diante do Maracanã, com o celular deitado, seguindo as instruções da TV Globo para a campanha “Brasil que eu quero”:
“Eu falo do Rio de Janeiro, da frente deste estádio que já foi o maior do mundo, símbolo do futebol brasileiro, antes de perder as pastilhas azuis e um pouco da alegria para se enquadrar no padrão Fifa... E o Brasil que eu quero na Copa é um time que respeita a sua história, está em linha com o futebol mais moderno e joga para ganhar.
Faz tempo que o Brasil namora a Europa, desde que o time todo se bandeou para a Champions League. São tantos ‘estrangeiros’ que não teve jogo de despedida por estes lados, nem no Maracanã, no Morumbi, no Mineirão; nossos craques se despediram da torcida em Liverpool! Tem meio time na Inglaterra, e o Manchester City foi quem mais cedeu jogadores à seleção — não foi o Flamengo nem o Corinthians nem o Grêmio, que lideram o Campeonato Brasileiro.
O Brasil que eu quero aprendeu a se aplicar taticamente, e isso é bom, num esporte em que o jogo coletivo reduz os espaços do campo. Mas não esquece as suas origens, e sabe que nenhuma das escolas do futebol mereceu o reconhecimento mundial que tem o futebol brasileiro, uma maneira única de jogar, baseada na força do ataque, no drible e na alegria. Está certo, ganhamos em 1994, com forte esquema defensivo. Mas aquele time tinha Romário. Como a Argentina ganhou em 86 porque tinha Maradona.
O Brasil que eu quero vai para a Rússia ciente de que as coisas não andam bem por aqui, que os estádios superfaturados estão às moscas, que os três últimos presidentes da CBF estão na cadeia ou sob investigação e que o torcedor anda meio desconfiado de tudo. Mas sabe que não deve satisfação a cartola e se uniu em torno de Tite e da Comissão Técnica para vestir a camisa amarela e tentar escrever sua parte na história do futebol.
O Brasil que eu quero entrou em campo por alguns minutos contra a Croácia. Não no primeiro tempo, quando se enrolou na saída de bola. Mas no segundo, com Neymar em campo. Não apenas porque ele voltava recuperado e inspirado. Mas porque abandonamos os três volantes, Casemiro, Fernandinho e Paulinho. Por uma formação mais ofensiva, com Casemiro, Paulinho e Philippe Coutinho. Preservando o ataque com Willian, Gabriel Jesus e Neymar.
O Brasil que eu quero se arma bem na defesa, mas joga para ganhar. É um time leve. Isso pode ser problema, como se viu no primeiro tempo contra a Croácia, quando os adversários chegaram junto em cada jogada, impondo a sua força física. Mas um time leve também pode ser uma vantagem, se souber ser rápido, como no segundo tempo contra a mesma Croácia. O primeiro gol foi a cara do Brasil: Willian, em velocidade, Coutinho, com inteligência, jogando como Modric no Real Madrid, e, finalmente, Neymar, desconcertante, na velocidade, no drible, no chute.
O Brasil que eu quero está pronto para a Copa. Pode ganhar ou perder. O time de Zico, Sócrates e Falcão, em 1982, não ganhou. Mas saberá para quem está jogando. Se reconhece nas reportagens do Tino Marcos, no “Jornal Nacional”, busca sua força no lugar de origem, na sua comunidade. Joga para a mãe, pro irmão, pra professora, pro primeiro treinador... Muitos jogadores tatuaram na pele com orgulho a sua história. As tatuagens de Gabriel Jesus ou Neymar são mais que um documento firmado em cartório. Eles sabem como o futebol pode mudar uma vida. E inspirar outras tantas.”

