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MPF investiga compra de votos mais ampla na eleição do Rio-2016

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Os e-mails trocados entre Leonardo Gryner, braço-direito de Carlos Arthur Nuzman no Comitê Olímpico do Brasil (COB) e Papa Massata Diack, filho do senegalês Lamine Diack, levantam suspeitas de que o jogo de “ganha-ganha” citado pelo Ministério Público Federal (MPF), em referência ao esquema de corrupção na escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos de 2016, é mais amplo e envolve outras fontes de pagamento da propina e delegados olímpicos corrompidos.

Enquanto Nuzman e Gryner cumprem prisão temporária no presídio de Benfica, os investigadores da Operação Unfairplay, em parceria com o Ministério Público francês, vão atrás de pistas deixadas por duas das mensagens apreendidas. Eles querem saber a quem Papa Diack se referia na mensagem em que pressionava Gryner a efetuar um pagamento supostamente devido, quando disse: “Nós temos enfrentado de nosso lado todo tipo de constrangimento de pessoas que confiaram no nosso comprometimento em Copenhague”. O MPF menciona a hipótese de Lanine Diack ter conduzido uma votação em bloco.

Outro caminho da investigação foi aberto pelo que escreveu Gryner, na época diretor-geral de Operações da Rio-2016, a Papa Diack, nos e-mails trocados entre novembro e dezembro de 2009. Em reposta à cobrança do senegalês, além de pedir desculpas pelo atraso no pagamento, Gryner explica: “Como eu te disse em Copenhague, nós temos um patrocinador diferente para esta última parte. Este patrocinador está tendo problemas com a transferência”.

Até aqui, o MPF tinha identificado pagamentos de US$ 2 milhões efetuados pelo empresário Arthur Soares, o “Rei Arthur”, campeão de contratos com o governo Sérgio Cabral, a Papa Diack em duas remessas ocorridas em setembro de 2009, poucos dias antes da votação que escolheu o Rio, ocorrida em Copenhague, no dia 2 de outubro. Em retribuição ao pagamento, Lamine Diack, pai de Papa, teria dado o voto à cidade brasileira. Nuzman e Gryner foram acusados de intermediar a negociação, usando para isso a estrutura do COB.

Agora, os e-mails apreendidos na investigação revelam que Papa cobrava mais dinheiro, supostamente em nome de amigos, entre novembro e dezembro, e que Gryner pretendia pagar com outros “patrocinadores”. A referência ao jogo de “ganha-ganha”, explicaram os investigadores, está relacionada ao fato de que, para os brasileiros envolvidos no esquema, dirigentes esportivos ou empresários, não bastava apenas garantir a vitória do Rio. Eles queriam obter vantagens financeiras com a escolha da cidade como sede dos Jogos.

No pedido de prisão de Nuzman e Gryner, o MPF aponta a ligação de pelo menos dois outros empresários ligados ao esquema de Sérgio Cabral no governo do Rio, com os Jogos Olímpicos. As empresas de Marco Antônio de Luca, atualmente preso por pagar propina ao ex-governador em troca de fechar volumosos contratos com o governo, também foram contratadas pela organização do Rio-2016. O mesmo aconteceu com empresas de Jacob Barata Filho, que integrava, segundo o MPF, o esquema de Cabral na área de Transportes.

Para os investigadores, a operação está perto de provar que a propina por votos do COI superou os US$ 2 milhões conhecidos. Eles já teriam identificado o pagamentos de pelo menos mais US$ 500 mil.

— A Olimpíada foi oportunidade de capitalização política e financeira para a quadrilha. Todos os amigos da corte tiveram seus lucros — completou a procuradora Fabiana Schneider.

A peça do MPF aponta, como exemplo do “ganha-ganha”, uma negociação de dívida entre o Comitê Rio-2016 e a LSH Empreendimentos, responsável pela construção de um hotel na Barra da Tijuca, e que tinha participação de uma empresa de Arthur Soares, a AS Patrimonial. Antes dos Jogos, o comitê pagara quase R$ 4 milhões à LSH para assegurar reserva de acomodações durante a Olimpíada, a preços pré-determinados. Como o hotel não ficou totalmente pronto, a LSH tornou-se devedora de multa no valor de R$ 2,3 milhões, segundo documentos apresentados pelos procuradores.

O Rio-2016, porém, aceitou dar desconto de 30% à empresa, que arcou apenas com R$ 1,6 milhão. O acordo ocorreu após os Jogos, quando o Comitê Rio-2016 solicitava recursos dos governos federal, estadual e municipal para cobrir uma dívida de R$ 132 milhões em seu balanço final. Sem garantia do poder público, o comitê passou a negociar diretamente com credores. Para o MPF, “o único perdedor foi o erário” nesta negociação.

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