O senador Mário Couto (PSDB-PA), autor do pedido de CPI, havia apresentado na semana passada 33 assinaturas para se abrir a apuração, seis a mais do que o mínimo necessário pelo regimento interno. O objetivo era investigar supostas irregularidades na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e nas federações estaduais de futebol, mas também previa a apuração de denúncias de mau uso de dinheiro público nas obras da Copa do Mundo. Pelas regras da Casa, os senadores tinham até a meia-noite desta terça-feira para retirar as assinaturas.
A ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, foi ao Senado para atuar na retirada dos apoios. A incursão foi bem-sucedida: nove senadores deixaram de subscrever a CPI, o que inviabilizou a criação da comissão. Retiraram seus nomes os senadores tucanos, partido do autor do pedido, Cícero Lucena (PB) e Cássio Cunha Lima (PB); dois senadores do Democratas, Wilder Morais (GO) e Maria do Carmo Alves (SE); três do PMDB, Lobão Filho (MA), João Alberto (MA) e Clésio Andrade (MG); além de Ivo Cassol (PP-RO) e Paulo Davim (PV-RN).
Após a decisão anunciada por Renan Calheiros, Mário Couto disse que gostaria de saber quem foram os senadores que não querem fiscalizar o governo, a CBF "corrupta e as federações corruptas". Ele contou que o senador Zezé Perrella (PDT-MG), ex-presidente do Cruzeiro, procurou alguns senadores para solicitar a retirada do apoio. Ele chamou-o de "amigo" e insinuou que ele recebeu uma ligação de cartolas da CBF. "Os senadores não querem, danem-se os senadores. Só quero dizer à Nação os nomes do senadores que não querem deixar aqui fazer CPI para investigar as verbas públicas, não é verba de ninguém. Hoje o Senado não tem moral para protocolar uma CPI, de poder fiscalizar as verbas públicas nesse País, mesmo todos sabendo que há irregularidades", acusou o senador tucano.
Em réplica, Zezé Perrella admitiu ter atuado, sim, para retirar as assinaturas. Ele disse que a motivação de Mário Couto foi uma "questão pontual": suspeitas de irregularidades que envolveriam o tucano com a Federação de Futebol do Pará. Por isso, destacou o senador mineiro, o colega queria abrir a CPI no Senado. "Estamos na véspera da Copa do Mundo. No meu entendimento, uma CPI nesse momento na CBF não sei bom se é para o futebol brasileiro. Respeito o senador Mário Couto, homem de bem, homem honrado", respondeu ele, que também revelou que, ao invés de ter recebido telefonema, ligou para dirigentes de futebol dizendo que trabalharia contra a comissão de investigação.
Mário Couto rebateu o colega de Senado. "Eu lhe respeitava, eu lhe considerava, senador. Depois do seu ato, eu não posso lhe considerar. O senhor não quis CPI porque foi presidente de um clube famoso e precisa da CBF. É ligado a ela, senador", afirmou. Baixando o tom, o tucano também acusou Zezé Perrella de passar a noite inteira "bisbilhotando" senadores para retirar os apoios.
Antes do recesso dos parlamentares, em julho, outro parlamentar do PSDB tentou, sem sucesso, levar adiante a criação de uma CPI para investigar irregularidades no uso de recursos federais para a Copa. O deputado Izalci Lucas (DF) pediu uma CPI mista - composta por deputados e senadores -, mas a comissão não foi criada porque parlamentares também retiraram o apoio.

