Corria o Campeonato Inglês da última temporada, e o Manchester City ocupava o campo defensivo de um Chelsea que, todo recuado, apostava na sorte grande de uma bola longa. Uma delas foi parar perto da linha lateral, ainda antes da grande área do City. Éderson, goleiro reserva da seleção brasileira na estreia de hoje na Copa do Mundo, abandonou a área, dominou e, no lugar de ceder o arremesso ou chutar na direção do campo contrário, girou o corpo na direção do centro do campo, aguardou o posicionamento dos volantes, executou um passe que venceu marcadores e, calmamente, retornou à meta.
O goleiro do City simbolizou o passo adiante, a nova etapa da posição do futebol que mais se transformou nas últimas décadas. Alisson, titular hoje contra a Suíça, também exibiu, embora de forma menos frequente e arrojada, fundamentos da inserção definitiva do camisa 1 no sistema de jogo coletivo de uma equipe. Há quatro anos, o alemão Neuer, outro que faz seu primeiro jogo no Mundial da Rússia hoje, era um defensor dos mais ativos com a bola nos pés quando seu time se adiantava para atacar. O jogo, que tinha dez homens de linha mais um goleiro, hoje é definitivamente disputado por onze contra onze.
— Da maneira como a gente joga, acho que a Copa exigirá muito de mim no jogo com os pés — disse Alisson, referindo-se não só ao modelo ofensivo da seleção, que pode resultar em bolas lançadas às costas dos zagueiros, mas também à proposta de iniciar jogadas com passes desde a defesa.
Um longo caminho foi percorrido para que o goleiro fosse visto como um jogador a mais. Por muito tempo, a visão corrente sobre o futebol seguiria recusando estabelecer qualquer relação entre ele e o funcionamento do restante do jogo: um ser diferente, quase excêntrico. Na rotina dos jogos amadores, virou sinônimo de refúgio para o menos hábil, o pior da turma. Opção inclusiva para quem se dispunha a fazer o que os demais não gostavam.
No âmbito profissional, a evolução foi sendo percebida através de nomes que, década após década, redefiniam padrões embaixo das traves. O que definia os melhores goleiros era a capacidade de fazer defesas antes impossíveis, pela velocidade de reação, pelo reflexo, pelo tempo de bola: Yashin, Gilmar dos Santos Neves, Gordon Banks, Sepp Maier, Peter Schmeichel... Ou mesmo a capacidade de sair do gol para interceptar cruzamentos.
Entre os anos 80 e 90, os que se aventuravam a jogar com o pé reforçavam a visão de exotismo. Não há imagem melhor do que Rene Higuita, mistura de excêntrico, louco e ídolo. Por vezes mero acrobata ou exibicionista, mas em muitos momentos um dos primeiros a perceber que a presença do goleiro como líbero, por trás da defesa, era um recurso a explorar. No geral, os times faziam longas preparações e treinos com defensores em posição de sobreaviso para que Chilavert e Rogério Ceni, por exemplo, cruzassem o campo em segurança para cobrar suas faltas e pênaltis. Tudo isso em meio a intermináveis debates sobre aquela ousadia.
A grande transformação começa a se desenhar em 1993, quando a Fifa proíbe goleiro pegar com a mão bolas recuadas por companheiros. O alvo era o antijogo, mas começava a maior revolução recente do futebol. Aos poucos, passou-se a entender que ter um goleiro hábil com os pés gerava novas possibilidades.
A visibilidade global da Copa fez o mundo se assombrar com Neuer. Tornou-se símbolo de um modelo já habitual para times que tentavam pressionar rivais, jogando com a linha de defesa adiantada. Ao se consagrar estilos de jogo voltados para a posse de bola e a construção das jogadas desde a defesa, os goleiros passaram a ser uma opção de passe.
O que já parecia um passo adiante, agora se sofisticou. Vieram os goleiros com boa “distribuição”. Ou seja, tão perfeitamente integrados ao sistema de jogo de seus times, com tamanho entendimento de todas as movimentações feitas pelos homens de linha, que passaram a variar o alcance dos passes de acordo com a estratégia de posse de bola e de marcação do adversário. Num jogo com o Tottenham, também pelo Campeonato Inglês da última temporada, o City se viu diante de um rival que pressionou a saída de bola de seus defensores. Éderson passou a encontrar os meias e volantes na altura do centro do campo, esperando o tempo certo para que se movessem e recebessem a bola. Alisson executou algo similar em jogos do Campeonato Italiano e da Liga dos Campeões. Embora o hoje reserva da seleção tenha virado um emblema desta nova habilidade.
Em seleções com menos tempo de treino e, em tese, menor sofisticação coletiva, é natural que o jogo embaixo das traves ainda seja decisivo. Como foi para a escolha de Alisson como titular de Tite. Mas o Mundial, certamente, verá muitas ações de goleiros com os pés.
— Alisson e Ederson têm uma bagagem, uma experiência com pouca idade que os goleiros da minha geração não tinham. O Alisson está um tom acima dos outros goleiros de hoje — disse Taffarel, preparador de goleiros da seleção.

