MOSCOU, 23 (AG) - Em um grupo de moscovitas, a palavra Brasil abre portas, é mágica. Quando eles ouvem o idioma português, carregado no sotaque carioca, todos querem logo saber em qual bairro do Rio você nasceu e se há mesmo a prática do esporte em cada esquina. Querem aprender muito da ginga, do jogo bonito. Pode parecer interesse no futebol, mas o fanatismo é pela capoeira.
Dança, arte, luta, esporte... A capoeira conquista a todos mundo afora pela simbiose. Em Moscou, é uma prática atraente, que leva os moscovitas a aprenderem português para entender o instrutor que, às vezes, é contratado diretamente no Brasil. Tamanha popularidade na Rússia abre o mercado para mestres brasileiros e seus diferentes estilos, mas também cria um hiato entre escolas - que parecem se multiplicar a cada estação de metrô - e a Federação Russa de Capoeira, fundada em 1998 e reconhecida pelo Ministério do Esporte do país.
Já de cara, no logotipo da federação, aparece a bandeira do Brasil. No mesmo símbolo há o nome do grupo Só Força, fundado pelo vice-presidente da entidade, Roman Belov. Ele também é faixa preta de caratê e faixa roxa de jiu-jítsu. Belov ganhou fama na Rússia após um combate com o mestre Barrão, do Brasil. Encerrada a luta, lançou até um livro.
Em abril deste ano, a federação e o Só Força organizaram um campeonato com mais de 350 praticantes da capoeira. Os batismos do grupo são capazes de reunir centenas de pessoas, entre homens, mulheres e crianças. Há mais de 30 espaços da Só Força em Moscou, divididos entre 23 instrutores.
Um dos convidados especiais do megaevento de quatro dias que aconteceu em Moscou em maio, o Tudo Pela Capoeira IV, o brasileiro Tony explica a ascensão de Belov.
- Sobre a federação, eu não posso falar muita coisa O que eu sei é que o rapaz que a criou já pratica há algum tempo, realiza vários campeonatos - diz Tony. - Certa vez, teve um mestre aqui, um mestre famoso, e quando ele estava ministrando o seminário, este russo dono da federação começou a questioná-lo e o chamou para briga. Moral da história: eles brigaram e, depois, o russo lançou o livro "Minha vitória sobre o mestre Barrão". Eles fazem o trabalho deles, e eu faço o meu. Os alunos dele sempre vão na minha roda... Ele nunca foi, e não tenho nenhum contado com ele.
Para quem pratica a capoeira em Moscou, há uma fronteira estabelecida entre a beleza e a competição. Para ensinar a ginga, os mestres são importados do Brasil. Por uma semana, um mestre brasileiro pode cobrar cachê de EUR 2 mil, fora as passagens e os custos com alimentação e hospedagem. Normalmente, eles emendam uma turnê pela Europa. Um mês de aula em um grupo pode custar 4 mil rublos (R$ 222) para os alunos.
Respeitado no mundo todo, mestre Bamba mantém a diplomacia e o respeito aos adversários que são peculiares à capoeira. Ele voltou recentemente de uma passagem pela Rússia.
- O mais importante é que a capoeira do Brasil chegou à Rússia com tudo para mostrar nossa cultura - comemora Bamba.
Alexander Meller fez o caminho inverso. Durante muito tempo, ele deu aulas em Moscou. Até que resolveu viajar para o Brasil e aprender com os locais.
- Fui de Salvador a Florianópolis para conhecer a cultura do Brasil. A ginga depende da cidade e do grupo. Eu prefiro o estilo do Cordão de Ouro, mais plástico, mais bonito. A capoeira aqui na Rússia era muito dura, quebrava dente, quebrava nariz... - conta ele, rindo, em um bom português, para só fechar o semblante ao lamentar a desunião que existe entre os praticantes no país:
- Hoje há muitos grupos grandes com dinheiro para contratar mestre e, ainda assim, a cena é desunida. Os mestres esnobam outros mestres.
Meller já aprendeu com Bamba e, na última semana, transmitia seus ensinamentos aos alunos em uma quadra no interior de uma escola perto da estação Chistye Prudy do metrô. Ele mora em Nijni Novgorod, a 400 km de Moscou, mas foi prestigiar as aulas e a roda dos amigos para comemorar o aniversário de Marina Kolesnikova, ou Marina Pomba Branca.
Aliás, na hora do batismo, eles escolhem nomes brasileiros. Alexandrer é o Masoquista. Estavam lá também: Sapo, Careca, Valente, Palhaço e Rapaz, entre outros. Com berimbau e pandeiro, cantaram "Parabéns para você" umas cinco vezes e mostraram um repertório vasto de músicas populares nas rodas do Brasil. Tudo em português.
- Eu aprendi português naturalmente - explicou Alexander, o Masoquista.
- Eu comecei a aprender para entender o instrutor - completou Marina, que pratica o esporte há sete anos.
A aluna russa já dá aulas a iniciantes e espera juntar dinheiro para finalmente conhecer o Brasil:
- A capoeira é uma grande parte da minha vida. Treino todos os dias da semana e isso ajuda a aliviar o estresse. Além de fazer me interessar por ritmos africanos e brasileiros.

