RIO, 31 (AG) - Quando decidiu se transferir por empréstimo para o Valencia, na última temporada, em busca de mais minutos em campo, Andreas Pereira ouviu o técnico José Mourinho, do Manchester United, tornar público seu desapontamento. O português dizia que a decisão do meia brasileiro mostrava um jogador que "não estava disposto a lutar por algo difícil", numa referência à disputa por lugares no meio-campo do United. Aos poucos, outras decisões de Andreas revelaram o oposto.
Filho do ex-jogador Marcos Pereira, um atacante que após jogar pela Inter de Limeira peregrinou por quase uma dezena de clubes belgas, Andreas Pereira nasceu em Duffel, onde morava com a família. Após defender o país natal nas divisões de base e ser assediado pela federação belga para defender a seleção principal, optou pelo caminho, em tese, mais difícil.
O Brasil tem 20 vezes a população da Bélgica e uma competição claramente maior por vagas na seleção. Mas Andreas Pereira acaba de ganhar um lugar no grupo de Tite que vai enfrentar El Salvador e Estados Unidos.
E parece colher frutos em outra briga "por algo difícil", como definiu Mourinho. Foi titular nos dois primeiros jogos do Manchester United na temporada, antes de perder a vez diante do Tottenham. Aos 22 anos, enfrenta com bom desempenho uma competição com Matic, Pogba, Fred, Ander Herrera, Fellaini e o jovem McTominay, que ganhara espaço com Mourinho na temporada passada.
- Cresci na Bélgica, mas sempre me senti estrangeiro lá. Na minha casa sempre se falou português, tenho casa no Brasil, viajo para o país em todas as férias. Meu sonho era a seleção brasileira, e a escolha fala muito sobre meu caráter. Nunca tive medo de desafios - contou ao GLOBO Andreas, cuja família é de Londrina.
Efeito ou não da crítica de Mourinho, o fato é que Andreas Pereira é só elogios ao treinador português, citado a cada resposta.
- A mídia pega muito no pé dele - lamenta.
Criticado pelas atuações do United desde a temporada passada, Mourinho comanda um processo importante na carreira do brasileiro. Andreas se acostumou a jogar numa linha de meias por trás do atacante, pelo centro ou pelo lado. Agora, iniciou o ano adaptado à função de "camisa 5", como o primeiro homem de meio-campo à frente da zaga.
Diariamente, passou a ouvir conselhos sobre posicionamento, em especial ao defender. Na seleção brasileira, que joga num 4-1-4-1, consegue se ver em diversas posições.
- Hoje me sinto capaz de jogar em qualquer lugar do meio. Mourinho me ajudou muito. Aprendi a defender, me posicionar. Tenho sorte de ter um técnico como ele - disse. - Gosto de dar o passe que vence linhas de marcação. Acho que posso ajudar com boa saída de bola nesta nova posição.
Mas Andreas não permite que o trabalho termine ao fim dos treinos. Em casa, assiste a vídeos de jogos de outros times e também de suas atuações que, conta, chega a assistir "duas ou três vezes". Inspirado em meias clássicos, cita Pirlo e Zidane como exemplos, mas também fala de Casemiro como um espelho para aprender o ofício de primeiro volante.
Andreas chega à seleção brasileira como um jogador 100% feito na Europa, produto parte holandês, parte inglês e agora moldado por um português. Ainda criança, saiu da Bélgica para jogar na base do PSV, em Eindhoven, na Holanda, cidade próxima à fronteira com o seu país natal.
Em 2011, aos 15 anos, foi convidado para conhecer o Centro de Treinamento do Manchester United, quando um encontro não programado com o agora ex-treinador Alex Ferguson mudou sua percepção do momento que vivia:
- Ele me viu e disse "bom dia". Nessa hora, quis assinar contrato ali mesmo.
Na base do clube inglês, conheceu o jovem Pogba, que agora reencontrou.
- Ele sempre foi assim: carismático, gente boa... O engraçado é que, na base, só podia chuteira preta e não podia ter cabelo diferente, extravagante. Até que ele saiu do clube e voltou bem mudado - lembra Andreas.
A seleção brasileira chega após um sonho frustrado. Em 2016, o meia foi incluído em convocações do técnico Rogério Micale, acreditou estar próximo dos Jogos Olímpicos do Rio, mas não entrou na lista final, e perdeu a chance de ganhar a medalha de ouro.
- Estava na Bélgica, tratando de uma lesão, quando vi o Brasil ser eliminado pelos belgas da Copa. Meu sonho é jogar um torneio grande pela seleção - confessa.

