Há pouco mais de um mês, o Estado revelou que parte do dinheiro de amistosos do Brasil ia justamente para contas de empresas de Rosell. Novos documentos, porém, revelam que a relação entre Teixeira e Rosell data de muitos anos e que associados ao cartola catalão estiveram implicado em vários outros negócios envolvendo o brasileiro.
O principal caso envolve a criação de um verdadeiro esquema de corrupção dentro da Fifa que acabou gerando as renúncias de Teixeira e mesmo de João Havelange. Segundo a Justiça suíça, ambos fraudaram a entidade máxima do futebol em R$ 40 milhões entre 1992 e 2000 da ISL, a empresa que vendia direitos de transmissão para a Copa de 2002 e 2006. O caso foi mantido em sigilo por dois anos e os cartolas brasileiros pagaram uma multa de US$ 2,45 milhões como devolução dos recursos e como forma de encerrar o caso de forma amistosa com a Fifa. O acordo mantinha seus nomes em sigilo em troca do dinheiro.
Na época, Teixeira foi buscar quem realmente entendia do assunto para lhe defender. O cartola brasileiro contratou o advogado Antenor Madruga para o representar. Madruga, até 2007, havia sido um dos membros do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e coordenador da Estratégia Nacional para Combater Corrupção e Lavagem de Dinheiro.
Mas o sigilo não durou e recursos nos tribunais em Lausanne conseguiram a liberação da documentação. Havelange foi obrigado a renunciar do cargo de presidente de honra da Fifa e do Comitê Olímpico Internacional. Já Teixeira deixou a CBF, a Fifa e foi viver em Miami. Mas os documentos mantinham ainda em sigilo nomes de outros envolvidos. Segundo os documentos oficiais da Justiça, a pessoa identificada como P5 prestou depoimento na época e indicou que "ele conduziu as transações em nome de Ricardo Terra Teixeira". US$ 2,4 milhões saíram de um banco de Zurique para a conta 400428 em nome de Ricardo Teixeira em Andorra. De acordo com o documento, "P5 então sacou os pagamentos em dinheiro líquido e os pagou em contas de Ricardo Terra Teixeira".
Dados obtidos pela reportagem revelam agora que a empresa que fez a gestão para a devolução do dinheiro na forma de multas foi a Bon Us SL. A empresa foi quem depositou os US$ 2,5 milhões do acerto entre Teixeira, Havelange e a Fifa. O dinheiro foi para a conta de Peter Nobel, o advogado pessoal de Joseph Blatter, presidente da Fifa, quem repassou o dinheiro à instituição. Quatro dias depois, mais US$ 100 mil foram repassado de um banco em Andorra para Nobel, supostamente como honorários de advogados.
O presidente da Bon Us não é declarado em documentos oficiais. Mas ela é acionista da sociedade CO-INVEST SP. Z O.O. registrada na Polônia e que tem como um de seus sócios Joan Besoli, sócio por sua vez de Rosell. A trama de relacionamentos não acaba por ai. Besoli também foi o sócio de Rosell na empresa Comptages SL, o escritório que questionou o pedido de Teixeira para ser residente de Andorra.
Besoli é ainda conselheiro de finanças Sant Julia de Loria, uma das cidades de Andorra e, coincidentemente, a mesma na qual Teixeira registrou uma de suas residências, em Xalet Can Xiripa, Aixuverri.
ISL - Mas o envolvimento de Rosell com as empresas ligadas ao escândalo da Fifa não termina com Besoli. Dados oficiais obtidos pela reportagem revelam que o cartola foi um dos dirigentes da ISL, em seu contrato na Espanha. Sua participação teria sido encerrada no dia 13 de maio de 2010, antes de assumir o Barça.
A ISL foi considerada pela Justiça na Suíça como um verdadeiro banco paralelo da Fifa, por onde pagamentos ilegais, corrupção e compra de favores eram financiados. Um dos homens citados nos documentos suíços é Jean Marie Weber. Nos registros na Espanha, ele aparece como sendo vice-presidente da ISL Espanha a partir de 21 de setembro de 1999. Num documento oficial da Comissão de Ética da Fifa de 29 de abril de 2013, Weber é citado como tendo uma acusação contra ele por corrupção nos tribunais de Zug, na Suíça.
Um ano depois, quem chega à presidência da ISL Espanha é Alejandro Torrado Andreu, outro empresário que por anos trabalhou com Rosell e foi seu sócio. Durante o tempo em que Weber e Rosell fizeram parte da ISL Espanha, a companhia fechou um acordo com a Federação Espanhola de Futebol e com a Associação de Futebol da Argentina liderada por Julio Grondona.
A reportagem tentou falar com Besoli e deixou recados tanto em seu partido político como na sede de sua administração de Finanças de Sant Julia, sem sucesso.


