A defesa do peruano Paolo Guerrero, que será julgado nesta quinta-feira, às 13 horas de Zurique (10h no Brasil), na Suíça, na Comissão Disciplinar da Fifa, por doping positivo para benzoilecgonina, um metabólito da coca ou da cocaína, encontrou chá de coca e chá com mistura com a folha de coca no hotel no Peru, em que o jogador ficou hospedado com a seleção de seu país, na véspera da viagem para a Argentina, para confronto pelas Eliminatórias. Não houve contaminação cruzada na fabricação do chá, consumido por ele na ocasião, como a equipe de advogados do atleta acreditava. Ele bebeu chá que tinha folha de coca.
Guerrero teve controle antidoping positivo para benzoilecgonina, resultado do metabolismo da cocaína ou da coca no organismo, após esse jogo, em 5 de outubro.
Estava gripado e a nutricionista da seleção, Eudith Saavedra, lhe receitou o chá, servido pronto por um garçom do hotel. A benzoilecgonina está na lista de substâncias proibidas da Agência Mundial Antidoping (Wada) e a punição para quem a apresenta em exame de urina é de 4 anos de suspensão.
Segundo o advogado de Guerrero, Bichara Neto, a defesa tentará provar que o doping se deu após a ingestão desse chá porque “essa é a tese mais provável”.
Assim, na documentação enviada à Fifa, anexou uma ata notarial, lavrada em cartório, em que um tabelião atestou que neste hotel no Peru havia chás de coca e com a folha de coca na composição. Tanto nos quartos quando no serviço. Bichara contou que um tabelião foi ao hotel e narrou o que viu em documento. A ata notarial é um instrumento público, no qual, a pedido de uma pessoa, o tabelião formaliza um documento narrando fielmente tudo aquilo que verifica, sem juízo de valor.
Além disso, a defesa afirma que recolheu amostras dos chás, em embalagens lacradas, e que as testou em laboratórios no Brasil e na Califórnia (EUA) — não acreditados pela Wada — confirmando a presença da coca.
— O tabelião foi ao hotel, pediu o chá, viu os sachés que estão à disposição inclusive no quarto e narrou o que viu. É uma das provas de que no local a bebida estava disponível e era servida — conta Bichara.
O jogador terá a nutricionista como testemunha, além de um atleta do grupo. Membros do hotel, a princípio, não ajudaram.
— Ela receitou o chá e ele bebeu na confiança de que estava em ambiente seguro, com a seleção, e com a tranquilidade de que era oferecido pela comissão técnica. O garçom que lhe serviu a bebida não quis ser testemunha. Talvez por medo.
A defesa tem ainda a concentração da substância no exame do atleta. O número, baixo, segundo Bichara, foi fornecido pelo laboratório que fez a análise, em Colônia, na Alemanha. Para casos semelhantes, de estimulantes não especificados, basta aparecer um rastro no exame para caracterizar o resultado adverso.
— A concentração na amostra A é um pouco mais do que 50 nanograma por mililitro (ng/ml). Esse é mais um indício da nossa tese — explicou o advogado, que conta ainda com a ajuda do bioquímico L.C. Cameron, coordenador do Laboratório de Bioquímica de Proteínas da UNIRIO.
Também anexou à defesa exame com fios de cabelo de Guerrero que o isentam do uso de cocaína. Isso porque a droga tem um padrão capilar de marcação que é um indício de quem é usuário. O último exame antidoping de Guerrero, pelo Flamengo, foi em setembro e deu negativo.
O histórico do atleta, 14 resultados negativos entre 2012 e 2017, no Paulista, Brasileiro e na Sul-americana, pode ajudar na “imagem de atleta limpo”. Mas, geralmente, só serve para não aumentar mais a pena.
— O exame nos fios de cabelo servem sim como uma prova científica e deve ajudar. Mas, o histórico, não. Apenas em caso de reincidência é levando em consideração para aumento ou não da pena — comenta Luciano Hostins, presidente do Tribunal Antidopagem do Brasil. — Se ficar claro que alguém da comissão técnica receitou, aplicou ou deu alguma substância proibida para o atleta caberá novo processo, desta vez em relação a esta pessoa, e por iniciativa da Fifa.
Bichara explica que tentará provar que Guerrero não usou cocaína e que o consumo do chá foi sem o conhecimento de que a bebida continha folha de coca.
Por se tratar de um estimulante não especificado, ou seja, que não deve aparecer de jeito nenhum na urina do atleta, a punição é a mais rigorosa do Código Antidopagem da Wada: 4 anos de suspensão.
Se conseguir provar a origem e que não fez uso para melhora esportiva, a pena pode cair para 2 anos. E, dependendo de circunstâncias excepcionais, pode abaixar mais.
— Ele está indignado com o que aconteceu. Guerrero não consumiu cocaína e foi pego no antidoping mesmo em um ambiente seguro com sua seleção. Sabe que isso é um arranhão em sua imagem. Vamos trabalhar pela absolvição — fala Bichara.
Fernando Solera, presidente da comissão de controle de doping da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) afirma que a tese da defesa é factível. E lembra o caso do goleiro Zetti, pela Eliminatórias, em 1993.
Na época, a Fifa anunciou a suspensão provisória de Zetti por ter encontrado a mesma substância em sua urina, em teste após a partida contra a Bolívia, em La Paz. O ex-são-paulino tomou um chá para diminuir os efeitos da altitude quando estava com a seleção brasileira. À época cogitou-se um ano de suspensão. Quatro dias depois, a Fifa reconheceu que havia apenas traços de cocaína na urina do jogador, compatível com a tese do chá, e retirou a suspensão.
— Se a concentração é próxima a 50 ng/ml reforça a tese da defesa. É factível. Mas, a meu ver a punição tem de ser de acordo com o novo código antidopagem, ou quatro ou dois anos — opinou Solera, que desconfia da história da nutricionista. — Conheço a comissão médica da seleção do Peru e jamais deixariam passar esse tipo de bebida.
Guerrero está suspenso pela Fifa desde o dia 3 de novembro, ou seja há 28 dias. E a Copa do Mundo da Rússia começa em junho. O Peru não disputa um Mundial desde 1982 (jogou os Mundiais de 1930, 1970 e 1978).

