MOSCOU Enquanto as sete arenas ainda não inauguradas para a Copa do Mundo começam a ser testadas, neste mês, Moscou — que já abriu seus estádios Lujniki e Otkrytie ao público — receberá um evento-teste alternativo. O duelo entre CSKA e Arsenal, da Inglaterra, pelas quartas de final da Liga Europa, com jogo de volta marcado para 12 de abril na Arena VEB, colocará à prova a preparação do governo russo para conter a ameaça do hooliganismo no Mundial.
Brigas envolvendo torcedores de seleções que participarão da Copa — incluindo a própria Rússia — foram recorrentes na Eurocopa de 2016, na França. O clube britânico já manifestou preocupação de que o contexto atual, com uma escalada de desavenças e tensões políticas entre Rússia e Inglaterra, possa servir de combustível para as novas confusões entre hooligans. O jogo de ida acontece nesta quinta, dia 5, em Londres.
Na última terça-feira, o governo britânico atualizou seu serviço de alerta de viagens com o lembrete do jogo entre CSKA e Arsenal. As recomendações das autoridades do Reino Unido incluem dicas banais, como não consumir bebida alcoólica no estádio ou em espaços públicos — o que é proibido na Rússia — e exigências para obtenção de visto. Mas também pedem atenção com a delicada crise diplomática desenhada entre os dois países por conta do envenenamento do ex-espião russo Sergei Skripal, que vive em Salisbury, no sul da Inglaterra.
Skripal atuou como agente duplo inglês até o início dos anos 2000, quando foi condenado por traição na Rússia. Ficou preso até ser envolvido, em 2010, numa troca de espiões presos entre os dois governos. Há cerca de um mês, Skripal e sua filha, Yulia, foram encontrados com sinais de envenenamento perto de um centro comercial de Salisbury. Autoridades inglesas afirmam que ambos foram contaminados com o agente nervoso Novichok, de origem soviética. O governo russo nega envolvimento.
O aviso foi reproduzido pelo site oficial do Arsenal, em comunicado que classifica a segurança dos seus torcedores em Moscou como “prioridade máxima”. O clube inglês tem direito a até 1,5 mil ingressos para o jogo na capital russa. Dos quase 30 mil bilhetes colocados à venda para torcedores do CSKA, todos os lugares em setores comuns se esgotaram nas primeiras horas de venda, na segunda-feira. Segundo o clube russo, restam entradas apenas para camarotes e áreas VIP.
Em 2006, outro envenenamento
O jogo de ida, em Londres, também inspira cuidados. Há duas semanas, torcedores do CSKA se envolveram em conflitos com grupos do Lyon antes da partida que eliminou o time francês. Também houve confusão na fase anterior do torneio: em fevereiro, hooligans do Spartak de Moscou brigaram com rivais do Athletic Bilbao, na Espanha. Um policial sofreu uma parada cardíaca durante o conflito e morreu.
Na última vez em que Arsenal e CSKA se encontraram, em novembro de 2006, o jogo também se viu mergulhado na trama do envenenamento de outro ex-agente secreto russo. Ao reconstituir os passos de Andrey Lugovoi, ex-espião russo que esteve em Londres sob pretexto de assistir à partida pela fase de grupos da Liga dos Campeões, a polícia inglesa encontrou traços do material radioativo Polônio 210 no Emirates Stadium. A substância também apareceu no avião que transportou Lugovoi e no organismo de Alexander Litvnenko, seu ex-colega que vivia em Londres e adoeceu por conta do material radioativo horas após a visita.
Para o ex-volante brasileiro Gilberto Silva, que esteve em campo pelo Arsenal tanto naquele empate sem gols, em Londres, quanto na derrota diante do CSKA em Moscou, um mês antes, a preocupação com o clima de hostilidade não é responsabilidade dos clubes.
— Para isso, existem as autoridades competentes. Os clubes só têm que pensar em vir e jogar um bom futebol — opinou o pentacampeão do mundo, que defendeu o Arsenal de 2002 a 2008.
Uma semana depois do sorteio que colocou CSKA e Arsenal frente a frente, o secretário de Relações Exteriores britânico, Boris Johnson pôs mais lenha na fogueira política. Em uma reunião de um comitê multipartidário de assuntos externos, um parlamentar do Partido Trabalhista, Ian Austin, disse que o governo de Vladimir Putin planeja usar a Copa de 2018 “da mesma forma que (Adolf) Hitler usou a Olimpíada de 1936”. Johnson, em vez de repreender o deputado, concordou enfaticamente. Austin se referia à tentativa de usar um grande evento esportivo como propaganda de um regime. A comparação, no entanto, foi recebida com desagrado na Rússia, que perdeu cerca de 25 milhões de vidas (segundo estatísticas oficiais) em confrontos com o exército nazista na II Guerra Mundial — conhecida pelos russos como “Grande Guerra Patriótica”.
HOOLIGANISMO À ESPREITA
Na Eurocopa de 2016, brigas entre torcedores foram registradas em pelo menos sete das dez cidades que receberam jogos do torneio. As confusões foram provocadas por hooligans alemães, croatas, ucranianos e também franceses. O confronto mais notório aconteceu entre ingleses e russos, que brigaram nas arquibancadas do Estádio Vélodrome, em Marselha, no empate entre as duas seleções por 1 a 1. A Uefa, entidade máxima do futebol europeu, ameaçou excluir Rússia e Inglaterra da competição por conta dos distúrbios.
Na Rússia, o movimento hooligan ganhou força no fim dos anos 1980 e ao longo da década de 90, no contexto de desmantelamento da União Soviética e abertura para novas associações de identidade após o regime comunista.
— O hooliganismo não representa nenhuma ameaça ou risco muito grande, tampouco um fenômeno social de larga escala na Rússia — assegura Alexei Sorokin, atual diretor-executivo do Comitê Organizador da Copa do Mundo de 2018, que esteve à frente dos preparativos para o Mundial no início deste ano. — Estatisticamente, quando se juntam 40 mil pessoas, pode haver brigas em qualquer país do mundo. Mas é mentira que aqui na Rússia haverá tropas de hooligans esperando os estrangeiros. Temos um conceito de segurança muito bom, sólido, e na Copa das Confederações não tivemos incidentes.

