Início Esportes Camping que salvaria torcedores sem-teto na Copa tem vida pacata, famílias e surfe. Só não tem torcedores
Esportes

Camping que salvaria torcedores sem-teto na Copa tem vida pacata, famílias e surfe. Só não tem torcedores

Envie
Envie

KALININGRADO —Ouve-se apenas o som dos pássaros e do mar quando se caminha pela orla de Zelenogradsk, município de 13 mil habitantes que abrigaria uma das salvações para torcedores sem-teto na Copa do Mundo. A rede hoteleira da vizinha Kaliningrado, a sede que fica num enclave russo entre a Polônia e Lituânia, não demorou a ficar saturada e com preços nas alturas quando o sorteio dos grupos colocou lá o duelo entre Inglaterra e Bélgica, hoje, às 15h. Pressionado por soluções, o governo local anunciou campings criados para o Mundial, com churrasco, cerveja e divisão por países para evitar confusões. Empolgante no papel, o plano jamais se concretizou.

O primeiro foi inaugurado no início do mês em Zelenogradsk. Dos outros, não se teve mais notícia. O filho único, batizado de Albergue Kemping, conta com 18 cabanas de madeira, com diárias entre 5 mil e 7 mil rublos (por volta de R$ 400). Fica a meia hora de caminhada até a estação de trem que leva a Kaliningrado, ou 50 minutos de carro até o estádio. Pequeno, afastado e mais caro do que se pensaria de um camping, acabou ignorado pelas torcidas. Ontem, havia só uma família no local. Faziam um quieto churrasco.

— Moramos em Kaliningrado. Viemos passar o dia aqui para comemorar o aniversário dos meus pais. É um lugar tranquilo — explicou Anahit Mkrtchyan, de 32 anos, cantora lírica em Kaliningrado.

Fã de novelas brasileiras e do compositor Heitor Villa-Lobos, Anahit foi escalada para cantar hoje na Fan Fest de Kaliningrado, mas admitiu que não é fã de futebol.

— Gosto mesmo é de música clássica — explicou.

Do outro lado da rua, o comerciante Maxim passa o tempo em um quiosque vazio à beira da praia. Até se assusta quando ouve que o repórter veio do Brasil, e ri ao ser perguntado se a praia recebe muitos surfistas.

— Não tanto quanto o Brasil! — garante. — Tenho um amigo que viajou a Florianópolis e ficou encantado. Os turistas que vêm para Kaliningrado querem visitar prédios históricos e ver estátuas. E a maioria é da Rússia. Poucos vêm para nadar. A água é muito fria.

Kaliningrado é um exclave russo — isto é, um território fora das fronteiras do país — à beira do Mar Báltico, na fronteira com Polônia e Lituânia. Fazia parte da Alemanha até a II Guerra Mundial, quando foi incorporado pela Rússia, que fez ali uma base naval: é a única saída russa para o mar que nunca fica congelada. Devido à localização, tornou-se convidativa a torcedores do continente. Segundo o governo local, 56 mil estrangeiros são aguardados para o jogo entre Inglaterra e Bélgica, em um estádio que comporta 35 mil — muitos vêm na esperança de um ingresso tardio, ou simplesmente pela festa. A rede hoteleira tem cerca de 12 mil vagas.

Em março, o governo local informou que 96% dos quartos já estavam reservados, e admitiu casos de sobrepreço que chegavam a mais de 5.000%. Não se falava em campings. No fim daquele mês o Ministro da Cultura Regional, Andrei Ermak, anunciou o projeto — nas suas palavras, “uma boa solução”. Em junho, na inauguração do espaço de Zelenogradsk, Ermak mudou o discurso: afirmou que “não há uma demanda especial por acampamentos” por parte dos turistas.

— Se está procurando torcedores, recomendo que vá para o centro de Kaliningrado — sugeriu Maxim, o vendedor do quiosque deserto. — Aqui é muito longe de tudo.

Siga-nos no

Google News